domingo, 6 de novembro de 2011

O Termo Segundo Aristóteles

1.       Resumos dos Capítulos 1, 2 e 3: ante-predicamentos.

Segue um resumo do significado de termo, segundo as explicações de Aristóteles no livro “Das Categorias”, traduzidos para o português por Pinharanda Gomes, pela Editora Guimarães, e por Mário Ferreira dos Santos, pela Editora Matese.

Entendo que as explicações de Aristóteles nesse livro se referem ao termo na sua acepção de dictio e não na acepção de términus. Já apresentei a diferença entre estes dois conceitos, quando resumi os ensinamentos de Jacques Maritain.

Os estudiosos afirmam que estes capítulos se referem aos ante-predicamentos. São ante-predicamentos, segundo Mario Ferreira dos Santos, os preâmbulos e pré-requesitos para a ordenação dos predicamentos.
          
            Aristóteles escreve sobre as coisas o seguinte: no capítulo 1, diz como as coisas partilham nomes e definições, sob o critério da relação que mantém entre si; no capítulo 2, distingue as coisas enquanto capazes de serem afirmadas de um sujeito e enquanto presentes no sujeito; no capítulo 3; relata as conseqüências necessárias do fato de uma coisa ser afirmada de outra. 

           Três são as formas das coisas partilharem nomes e definições.

Primeiro, são homônimas ou equívocas as coisas que podem ser denominadas com o mesmo nome, mas este não lhes atribui à mesma definição, pois elas possuem caracteres essenciais distintos. Assim é para um “homem real” e uma “pintura de homem”, as quais podem ser denominadas de “animal”, mas que evidentemente possuem caracteres essenciais distintos e, por isso, este nome não lhes atribui à mesma definição. Há, portanto, três elementos envolvidos na idéia: coisa, nome e definição. Duas são as coisas: “homem real” e “pintura de homem”; um é o nome: “animal” e duas são as definições, uma para cada coisa, não ditas, mas implícitas: “indivíduo animal racional” e “símbolo visualmente sensível de um indivíduo animal racional”. Homônimas (equívocas) são as duas coisas

Segundo, são sinônimas ou unívocas as coisas que podem ser denominadas com o mesmo nome e este lhes atribui à mesma definição, pois elas possuem caracteres essenciais parcialmente idênticos. Assim é para um “homem” e um “boi”, os quais podem ser denominados de “animal” e este nome lhes atribui à mesma definição, na exata medida em que compartilham caracteres essenciais idênticos. Ambas as coisas são substâncias compostas, dotadas de corpo vivente, animado e sensível, notas estas definidoras do gênero animal. Daí porque ambas as coisas podem ser designada pelo nome genérico “animal”. Elas se distinguem pela diferença específica “racional” no homem e “irracional” no boi. Há, portanto, os mesmos três elementos envolvidos na idéia: coisa, nome e definição. Duas são as coisas: “homem” e “boi”; um é o nome: “animal” e uma é a definição, para ambas as coisas, não dita, mas implícita: “ser vivo constituído de corpo e animação sensível”. Sinônimas (unívocas) são as duas coisas.

Assim, as coisas homônimas e sinônimas possuem uma igualdade que as inclui num único gênero e diferenças que as tornam espécies distintas. A igualdade consiste em serem coisas distintas que compartilham o mesmo nome. A diferença está nos caracteres essenciais revelados pelas definições embutidas nos nomes: se a mesma definição, os mesmos caracteres, sinônimas; se definições distintas, caracteres distintos, homônimas. 

Terceiro, são parônimas ou denominativas as coisas que mantém a seguinte relação: uma recebe o nome derivado do nome da outra. Assim é para o “gramático”, que recebe seu nome derivado do de outra coisa, a “gramática”. Duas são as coisas: “um indivíduo” e “uma ciência”; dois são os nomes: “gramático” e “gramática”; duas são as definições, uma para cada coisa, não ditas, mas implícitas: “indivíduo conhecedor da ciência da gramática” e “ciência que trata da organização e do funcionamento de uma língua”, e a derivação dos nomes. Parônimas (denominativas) são as duas coisas.

Quatro sãos as distinções das coisas enquanto capazes de serem afirmadas de um sujeito e enquanto presentes no sujeito. 

Primeiro, há coisas que podem ser afirmadas de um sujeito, mas nunca está presente em um sujeito. Por exemplo, a espécie homem pode ser afirmada de um homem individual, mas não está presente em nenhum sujeito. 

Segundo, há coisas que não podem ser afirmadas de um sujeito, mas está presente em um sujeito. Por exemplo, a brancura não pode ser afirmada de um sujeito, mas ela está presente em um sujeito, num determinado corpo. 

Terceiro, há coisas que podem ser afirmada de um sujeito e ao mesmo tempo está em um sujeito. Por exemplo, a ciência pode ser afirmada de um sujeito, que é a gramática, e ao mesmo tempo está em um sujeito, que é na alma humana. 

E quarto, há coisas que não podem ser afirmadas de um sujeito, nem está em um sujeito. Por exemplo, o homem individual, que não pode ser afirmado de um sujeito, nem está em um sujeito.

            Duas são as conseqüências lógicas necessárias do fato de uma coisa ser afirmada de outra. 

Primeiro, se uma coisa é afirmada de outra, então tudo que for afirmado daquela (do predicado) será afirmado desta (do sujeito): o predicado do predicado é predicado do sujeito. Por exemplo, se a espécie homem é afirmada do homem individual, então o gênero animal, que é afirmado da espécie homem, também é afirmado do homem individual. 

Segundo, se os gêneros são diferentes e não subordinados entre si, então as diferenças específicas de um não são aplicáveis ao outro. Por exemplo, os gêneros animal e ciência são diferentes e não subordinados entre si; então as diferenças específicas do gênero animal, que são pedestre, alado e aquático, não são aplicáveis ao gênero ciência.  

            Além disso, Aristóteles escreve sobre as expressões o seguinte: as expressões são simples, quando não há combinações de nomes, a exemplo de “homem”; ou compostas, quando há combinações de nomes, a exemplo de “o homem corre”. 

Pelo visto, então, os ante-predicamentos se referem a coisas, nomes, definições e diferenças. São quatro ao todo: 1º, a divisão das coisas em homônimas (equívocas), sinônimas (unívocas) e parônimas (denominativas); 2º, divisão das coisas enquanto afirmadas de um sujeito e presentes no sujeito; 3º, a divisão das coisas em razão das suas diferenças e 4º, a divisão das expressões entre simples e complexas.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Resumo da Leitura Ativa de Literatura imaginativa

(Como Ler Livros: o guia clássico para a leitura inteligente, de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, Editora É Realizações, Trad. Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara)


1.       Postulados:

a)      Quem não consegue dizer por que gostou de um romance provavelmente não ultrapassou suas mais óbvias superfícies.

b)      Literatura imaginativa mais deleita do que ensina.

c)       A beleza é mais difícil de analisar do que a verdade.

             Minhas Conclusões: Na medida em que a literatura imaginativa é espécie do gênero belas artes, e na medida em que as belas artes têm como objetivo primeiro deleitar através da exposição da beleza; estes por dedução também são os objetivos primeiros da literatura imaginativa e, por conseqüência, caberá ao leitor procurar primeiramente a contemplação da beleza através da análise.
2.      
                                  Como ler ativamente literatura imaginativa:

- se divide em dois modos: via negativa (como não ler) e via da analogia (transpondo as regras da leitura de não-ficção para os seus equivalentes na ficção)

a)      Via negativa

- Não tente resistir aos efeitos que uma obra de literatura tem sobre você (deixe-se levar pela estória, é uma espécie de paixão ativa ou de uma ação passiva)

- Não procure termos, proposições e argumentos na literatura imaginativa.

- Não critique a ficção usando os critérios de verdade e coerência que são devidamente aplicados a comunicação do conhecimento.

b)      Via da analogia

- Análogo ficcional das regras não ficcionais para descobrir a unidade e a relação estrutural entre o todo e as partes:

1º) classificar uma obra de literatura de acordo com suas espécies: poesia, romances, peças teatrais; 2º) apreender a unidade da obra através do seu enredo; 3º) descobrir de que modo o todo se compõe de partes, através da observação da caracterização e dos acontecimentos.

- Análogo ficcional das regras não ficcionais para identificar e interpretar os termos, proposições e argumentos.

1º) Identificar e interpretar os equivalentes dos termos, que na obra de ficção são os episódios, personagens, falas, sentimentos e ações; 2º)  Identificar e interpretar os equivalentes das proposições, que na obra de ficção são as cenas que constroem o mundo imaginário; 3º) Identificar e interpretar os equivalentes dos argumentos, que na obra de ficção é acompanhar atentamente o desenrolar do enredo.

- Análogo ficcional das regras não ficcionais para criticar a doutrina do autor, concordando ou discordando de modo inteligente.

1º) Princípios gerais: não criticar a beleza de uma obra imaginativa enquanto não a tiver apreciado por completo: não questionar o mundo criado pelo autor; não se trata de concorda ou discordar do autor, mas sim gostar ou não gostar da estória; não se trata de procurar a verdade, mas sim procurar a beleza, relacionada ao prazer que ela nos proporciona; 2º) Primeiro julgamento de gosto: gosta ou não gosta do livro e porquê, apontando as passagens que fundamentam os porquês; 3º) Julgamento sobre o que é bom ou ruim: objetivamente apontar o que no livro provoca determinados prazeres imaginativos.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Resumo da Leitura Intrínseca

(Como Ler Livros: o guia clássico para a leitura inteligente, de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, Editora É Realizações, Trad. Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara)
1.       1. Leitura Ativa.

2.       2. Tipos de Leitura Ativa: Leitura Intrínseca e leitura extrínseca.

a)      a) Leitura Intrínseca: leitura de um dado livro, seguindo as regras estabelecidas pelo livro de Adler, utilizando-se apenas dos seus próprios esforços de compreensão.
b)      b) Leitura Extrínseca: leitura de um dado livro, utilizando-se, como apoio, as experiências comuns, experiências incomuns, outros livros, livros de resumo ou comentários, enciclopédia e dicionários.

3.       3. Leitura Intrínseca:

- Visa responder a 4 perguntas: O livro é sobre que assunto? O que diz o livro sobre o assunto? O livro fala a verdade sobre o assunto? Qual a importância do livro?
- A leitura intrínseca se divide em 4 níveis.
OBS.: A divisão não é em tipos, porque estes são mutuamente exclusivos, mas sim em níveis, porque estes são sucessivos e inclusivos.
3.1)                      1º Nível (Leitura Elementar)

3.2)                      2º Nível (Leitura de inspeção): se divide em pre-leitura e leitura superficial.

a)       a) Pre-leitura – Serve para saber sobre que assunto trata o livro. Consiste em interpretar o título, o subtítulo, ler o índice como quem decodifica um mapa do assunto, ler os resumos dos capítulos, a orelha, o prefácio, o posfácio; ler algumas passagens reconhecidas como principais a partir da análise do índice e ler as últimas páginas do último capítulo para apreender o resumo da idéia central.

b)      b) Leitura superficial – Serve para saber o que o livro diz sobre o assunto de um modo geral. Consiste em ler o livro do início ao fim, sem parar para meditar sobre termos, proposições ou argumentos específicos.   

3.3)                      3º Nível (Leitura Analítica):

- Serve para saber o que o livro diz sobre o assunto de modo detalhado (1º e 2º estágio), para saber se o livro diz a verdade sobre o assunto (3º e 4º estágio) e para saber qual a importância do livro (4º estágio).
- Se divide em 4 estágios.

a)      1º Estágio (Leitura Estrutural)

- Classifique o livro: ficção ou não ficção; prático ou teórico; dentre os teóricos, ciência, história e filosofia. 
- Extrair a unidade do livro.
- Organizar a estrutura do livro em partes e sub-partes.
- Listar os problemas que o autor se propõe a resolver.

b)      2º Estágio (Leitura interpretativa)

- Encontrar o vocabulário do autor (conjunto das palavras mais importante do livro) e, a partir delas, encontrar a terminologia do autor (conjunto dos termos mais importantes).
- Encontrar as frases mais importantes do livro e, a partir delas, encontrar as proposições mais importantes.
- Encontrar os parágrafos ou conjuntos de frases mais importantes que se relacionam entre si e, a partir deles, encontrar os argumentos mais importantes.
- Listar as respostas oferecidas pelo autor às perguntas anteriormente propostas ou identificar as perguntas que não foram respondidas.

c)       3º Estágio (Leitura crítica)

- Regras de Etiqueta: Não critique até que esteja seguro da sua compreensão do livro todo. Não discorde emocionalmente do autor, com espírito competitivo e sem oferecer justificativas razoáveis aos pontos de discordância. Não perca as esperanças de se chegar a um estado de concordância com o autor. Demonstre que conhece a diferença entre conhecimento e opinião.
- Opções de crítica: concordo com o autor, discordo do autor, ou suspendo o julgamento. No caso de discordância, deve-se afirmar: o autor está desinformado, está mal informado, é ilógico ou sua análise é incompleta.

d)      4º Estágio (Leitura Sintópica)

- Prepare uma bibliografia inicial com base em catálogos de bibliotecas, bibliografias de livros, etc.
- Utilize a leitura de inspeção para escolher e ordenar os livros que tratam do assunto e para aclarar suas idéias.
- Procure as passagens mais importantes dos livros sobre o assunto através da leitura de inspeção.
- Formule uma terminologia neutra do assunto, de modo a nela reunir os termos comuns utilizados pelos autores, mesmo que cada um deles tenha utilizado palavras distintas.
- Estabeleça proposições neutras, formulando perguntas que são respondidas de modo semelhante pelos autores.
- Identifique as divergências entre os autores (centrais ou tangenciais), listando as diferentes respostas dadas por eles à mesma pergunta.
- Analise a discussão ordenando as perguntas, respostas concordantes e divergentes, esclarecendo o assunto da melhor maneira possível.

sábado, 7 de maio de 2011

Anivesário de Juliano

O meu filhinho completa hoje 4 anos de vida. Em homenagem a ele, como presente, deixo transcrito aqui o Salmo 98 (97).

Justiça do Rei divino

Cantai ao Senhor um cântico novo,
porque ele fez maravilhas;
foi sua destra que realizou a salvação,
foi seu santo braço.
O Senhor manifestou sua salvação,
aos olhos das nações revelou sua justiça.
Recordou-se de seu amor e de sua fidelidade
para com a casa de Israel;
os confins da terra contemplaram
a obra salvífica de nosso Deus.
Aclama o Senhor, terra inteira!
Prorrompei em jubilosos cantos,
tocai ao Senhor na cítara,
na cítara, acompanhando o canto!
Com clarins e ao som das trombetas,
aclamai o Rei, o Senhor!
Estronde o mar e tudo que nele contém,
o mundo e seus habitantes!
Batam palmas os rios,
igualmente os montes gritem de alegria
diante do Senhor porque ele vem
para julgar a terra;
ele julgará o mundo com justiça
e os povos com equidade.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A propósito da semana santa

A propósito da semana santa, folheando os meus livros a procura de alguma luz para compreender melhor este momento e o meu lugar no seu contexto, deparei-me com uma  passagem do livro "A Descoberta do Outro" de Gustavo Corão. 

Hoje em dia não temos mais os motivos de 1943 para nos vangloriarmos de uma Igreja bem instalada no mundo ou de uma superioridade intelectual católica. Ao contrário, a produção intelectual católica e a posição que a Igreja vem ocupando no mundo é motivo para preocupações; mas, a despeito de já não existirem tais circunstâncias, remanesce a mesma necessidade de 1943 para ouvirmos as duras palavras de Corção. A história do Calvário não é um história: é um mistério, e o cristão deve colocá-la diante de si  num eterno presente, como quem carrega uma cruz durante todo o tempo.   

Eu não posso deixar de dizer que Gustavo Corção é um dos meus autores favoritos. Segue o texto:

"O caminho parecer fácil e largo; mais adiante um pouco, ali mesmo naquela volta do caminho, naquele ângulo do calendário, marcado por um solstício e por um plenilúnio, dir-se-ia que ele encontrará um monumento enguirlandado, um arco triunfal, um obelisco: mas de repente ele encontra a cruz. 

Esse monumento é decisivo e essa prova é sempre dura; a glória da cruz, vista pela fé, é uma prova que o homem novo tem de carregar todos os dias, entrando em luta com o homem velho que se tinha instalado no mundo com suas convicções, seus tiques intelectuais e sobretudo seu critério de vitória. Justamente quando lhe parecia estar próximo um novo triunfo, um acréscimo de prestígio, um formidável sucesso, ele esbarra na Cruz. O homem novo sobressalta-se e esperneia sob o aguilhão; apalpa-se, busca apoio no seu próprio discernimento que até ali o sevira como bússola fiel para indicar com nitidez os caminhos da credibilidade e que agora parece ter enlouquecido sob a ação de estranho magnetismo. Ele mesmo pedira a fé. Pusera de joelhos seu corpo, sua alma, suas convicções, sua inteligência, pusera tudo de joelhos; submetera a razão a prova última do reconhecimento e do amor; escolhera; decidira casar-se em vez de ficar a vida inteira excorgitando; optara; pedira a Deus com amoroso temor a nova aliança de noivado... E agora, ao levantar-se, sente nos ombros o peso duma cruz.

Muitas vezes, lendo as páginas do novo testamento, romanticamente, para lhes achar um pitoresco, para entrever um colorido histórico nas cenas evangélicas, e ver uma estrada da Samaria batida de sol, achamos fácil reconhecer o Cristo e pasmamos assombrados ante o terrível equívoco dos judeus. O drama da paixão parece-nos evidente, claro, compreensível; qualquer um de nós não gostará de ser equiparado aos soldados romanos que jogavam dados praguejando ou a algum mercador que passasse ao longe tangendo seus asnos carregados de fazenda, sem voltar sequer o rosto preocupado e ganancioso para ver a Santa Agonia. Lendo a paixão assim, meditando-a como se fosse romance de enredo muito sabido, colocamo-nos, como é usual nessas leituras, do lado do autor e em pé de igualdade. Saboreamos a superioridade de saber ponto por ponto o que vai acontecer; sabemos que o pretor é aquele que vai lavar as mãos e Caifás é o que vai rasgar as vestes. E já sabemos que o Cristo é o Cristo. Já sabemos. É ele o Redentor do qual dois mil anos falarão e para o qual serão erigidas as catedrais de Estrasburgo e Chartres. Sentimo-nos imensamente superiores aos indiferentes do Calvário e estremecemos de horror diante dos que esbofetearam, insultaram e cuspiram a Santa Face.

Mas convém pensar um pouco: qual de nós poderia realmente suportar a dura prova da cruz? Qual de nós poderia aguentar a glória da cruz, a insuportável visão do opróbio, deixando seu velho critério de vitória, saducaico ou farisaico, baseado no prestígio ou no sucesso? Qual de nós poderia ver atrás daquele rosto ensanguentado e cuspido a Face dum Rei?

Parece facil agora, porque já lemos o texto muitas vezes e temos uma alegoria da paixão gravada em nossa memória. Parece fácil, mas agora mesmo, em cada instante, em cada dia, apesar de saber de cor o enredo da paixão, apesar da graça do nosso batismo, não somos nós mesmos que buscamos o triunfo fácil de ter razão e prestígio, não somos nós mesmos que esperneamos diante da loucura e do escândalo da exinanição do Cristo em sua Igreja?

Realmente, cada vez que nós desejamos a glória mundana ou política de sermos católicos, ou nos espantamos diante dos insucessos do Vaticano na política internacional, cada vez que nos envergonhamos de ouvir um sermão medíocre ou adotamos uma atitude de irritação diante da vida escandalosa de algum sacerdote, estamos exatamente como os judeus estavam diante da cruz e de nada nos adiantou saber de cor o enredo da paixão. O cristão está de pé diante da paixão do Espírito Santo e somente na fé pode suportar esse terrível espetáculo.

E ai está. As perguntas que fazíamos atrás, sobre as nossas probabilidades de reconheciomento diante do Calvário, pareciam idiotas como o são todas as suposições baseadas em retrospecções históricas. Não tem sentido, fora do recurso retórico, perguntar o que seria hoje São Paulo ou o que faria um de nós diante de Nabucodonosor. Mas a história do Calvário não é uma história: é um mistério. O nosso memorar não tem o sentido duma retrospecção histórica, mas de uma visão no mistério da fé. Se alguma tolice havia, ela estava antes no modo impressionista, hitórico, colorido, sentimental, de enfrentar a paixão, donde saía a extraordinária presunção de estarmos livres daquele espetáculo da cruz, isentos de seu escândalo e de sua loucura, blindados por dois mil anos de história e pelas pinturas alegóricas da Renascença.

Por isso o homem novo, na volta de seu caminho, espeneia sob o aguilhão. Estava na iminência de ter razão e de tirar daí um renovado prestígio. Apesar da fé do seu batismo já tinha começado seus cálculos sobre a respeitabilidade do quarteirão e já entrevia um Igreja decente, bem instalada no mundo, triunfante, bem sucedida, acatada por causa de Maritain, prestigiada pela conversão de Bergson, uma Igreja confortável, uma igreja sem cruz."

sábado, 22 de janeiro de 2011

Termo, segundo Jacques Maritain

4. O termo.

a)Apresentação

O ato do pensamento é de natureza imaterial, acontece no íntimo do indivíduo. Inicia-se da maneira já estudada através da simples apreensão e da formação do conceito, e se processa com o estabelecimento de relações através dos juízos e raciocínios. Por isso, a rigor, não é absolutamente necessário o uso de sinais materiais para a sua execução. 

Entretanto, o homem vive em sociedade, não basta a ele elucubrar no seu íntimo suas concepções sobre as coisas, pois sente necessidade de raciocinar tanto para adquirir o conhecimento transmitido por outros quanto para transmiti-lo a outros. Foi para essa atividade que criou um conjunto de sinais sensíveis aos aparelhos auditivos, daí porque materiais, com significados convencionalmente estabelecidos, para servirem de instrumento de comunicação do conhecimento: a linguagem. 

Mesmo assim, após a invenção da linguagem, a comunicação não era plenamente eficaz, em razão da fala não ecoar entre homens muito afastados entre si, seja no espaço ou no tempo. Não era possível falar com quem estava em outras terras, nem era possível deixar uma mensagem para quem o sucedesse no tempo. Visando superar tais dificuldades, o homem criou um conjunto de sinais sensíveis aos olhos, também materiais, também com significados convencionalmente estabelecidos, que representam os sinais sonoros, os quais poderiam ser levados aos olhos dos outros, localizados em lugares distantes, ou armazenados, para serem vistos depois: a escrita.

b)A Dictio

No contexto da fala e da escrita é que surge aquilo que os antigos chamavam de dictio (palavra) e os modernos chamam de termo, num sentido amplo, que é toda unidade sonora ou escrita, articulada, que convencionalmente significa um conceito. Portanto, cada palavra corresponde a um conceito, e convencionalmente se estabeleceu que aquela determinada palavra significasse aquele determinado conceito.

Já aprendemos que através da simples apreensão a coisa externa existente no mundo é substituída pela sua imagem que é apresentada ao espírito (o conceito objetivo) e que o espírito, a partir daí, produz um sinal mental da coisa (o conceito mental). Agora aprenderemos que a dictio é a substituição sonora ou escrita deste sinal mental e desta imagem da coisa que se apresentou ao espírito. Para os tomistas, a dictio substitui imediatamente o conceito mental, e substitui principalmente o conceito objetivo.

b.1)Divisões da Dictio

A dictio, por sua vez, além de se dividir em todas as categorias nas quais também se divide o conceito, também pode ser classificada em termos categoremáticos e termos sincategoremáticos. Os termos categoremáticos são aqueles que significam algo que por si só se perfaz na ordem dos seres, por exemplo, “pedra” ou “homem”; diferentemente, os termos sincategoremáticos são aqueles que significam algo que não possui uma existência autônoma, são apenas modificações da coisa, por exemplo, “todo”, “algum” ou “depressa”.

Os termos categoremáticos se subdividem entre termos absolutos e termos relativos. Os absolutos são aqueles que significam exclusivamente notas essenciais, por exemplo, “homem”, “a humanidade” ou “a brancura”; os relativos são aqueles que significam atributos de uma essência, por exemplo, “branco”, “sábio” ou “pai”.

A dictio se divide ainda em termos incomplexos e termos complexos. São incomplexos quando sua constituição é formada por uma única unidade significativa; por exemplo, “pedra” ou “homem”; são complexos quando sua constituição é formada por mais de uma unidade significativa, por exemplo, “homem instruído” ou “garça de longo pescoço”. 

c)O terminus
Num sentido mais restrito, entretanto, a dicto (termo lato sensu) pode ser analisada enquanto terminus (termo strictu sensu). O terminus, assim como indica a etimologia da palavra, é o último elemento no qual se resolve os compostos lógicos e, reversamente, é o primeiro elemento utilizado para a construção dos compostos lógicos. Este terminus se divide em termo enunciativo, aquele utilizado para a construção da simples proposição, e em termo silogístico, aquele utilizado como elemento da composição silogística.
c.1)O terminus enunciativo
Os termos enunciativos, por sua vez, possuem uma grande subdivisão, que é entre nome e verbo. Toda proposição se reduz em última instância a nome e verbo, sendo tais elementos as duas partes mínimas de uma proposição, considerando que o nome exerce a função de extremo estável e o verbo a função de meio que une os extremos. 

O verbo é um termo enunciativo composto de duas partes. A primeira parte, embutida em todo verbo, é o verbo “ser”, através do qual se aplica um atributo (nome-predicado) a um ente (nome-sujeito), e é nessa condição que é chamado pelos lógicos de copúla. O verbo “ser” também sempre carrega consigo a função do atributo “existente”, daí porque em toda proposição se afirma ou nega duas existência: a existência da determinação de um nome-sujeito por um nome-predicado; e a existência do nome-sujeito em si mesmo. Segue-se, portanto, a regra lógica de que uma proposição é verdadeira quando o predicado convém ao sujeito e quando o sujeito existe no modo de existência exigido pela cópula. Por exemplo, na proposição “Napoleão I era o imperador da França”, temos o seguinte: 1º, o verbo ser “era” liga o sujeito “Napoleão I” ao predicado “Imperador da França” numa relação de identificação entre os dois; 2º, o verbo ser “era” afirmou a existência de uma determinação de sujeito “Napoleão I” pelo predicado “Imperador da França”; e 3º, o sujeito “Napoleão I” existe no modo de existência atual, real e no passado, mesmo modo de existência exigido pela cópula “era”. 

A cópula, portanto, significa a afirmação da existência atual ou possível, de uma relação de identificação entre dois termos. Tal relação ocorre numa determinada coisa atual ou possível, real ou ideal.

Há duas maneiras do verbo ser se manifestar numa proposição, algo que inclusive provoca a existência de dois tipos de proposições. Na primeira, o verbo ser sozinho exerce a dupla função de cópula e de atributo, sendo este atributo exclusivamente o próprio predicado da proposição. Isto ocorre, por exemplo, na proposição “Eu sou”, em que o verbo ser exerce a função de cópula, para ligar o nome-sujeito “eu” ao atributo “existente”, e exerce ele mesmo a função do atributo “existente” aplicado ao sujeito. Portanto, a citada proposição se equivale a “eu sou existente”. Tais proposições são chamadas de “verbo-predicado”. Na segunda, o verbo ser exerce essencialmente a função de cópula, pois o atributo se apresenta separado do verbo. Assim é na proposição “O homem é um animal racional”. Tais proposições são denominadas de “verbo-cópula”. 

A segunda parte de todo verbo é o atributo que acompanha o verbo ser. O atributo dá ao verbo uma significação carregada do modo temporal, representa uma ação ou um movimento efetuado no tempo, assim é quando se enuncia algo, mesmo quando o enunciado é de algo que representa verdades intemporais. Por exemplo, as proposições “O triângulo tem a soma de seus dois ângulos igual a dois ângulos retos” ou “Deus é bom” veicula verdades intemporais, ligam coisas eternas, entretanto o significado dos verbos “tem” e “é” se apresentam num modo de ação que se passa no tempo. 

Do exposto, um verbo como escrever é composto das seguintes partes: do verbo ser, que permite a ligação do verbo escrever com um sujeito qualquer; do atributo existente contido no verbo ser, que afirma ou nega a existência do sujeito a ser ligado, e do atributo escrevente, que se encontra ali para ser ligado ao sujeito. Então, uma proposição como “Eu escrevo” equivale à proposição “Eu sou escrevente” e assim se passa com todos os verbos.

O termo enunciativo nome, por sua vez, significa a coisa de modo intemporal e estável, mesmo quando ele se refere a coisas em cuja essência esteja o tempo e o movimento, ele significa tal coisa de modo estável, permanente. Quando se diz, por exemplo, “o movimento” ou “o tempo”, tais nomes, mesmo se referindo a coisas que não possuem uma natureza estável, significam tais coisas ao modo de um elemento estável.

c.2)O terminus silogístico

Considerando agora o termo silogístico, se divide em sujeito e predicado. Sujeito é aquele em quem a cópula aplica uma determinação, e predicado é a determinação aplicada pela cópula. A pura cópula ou o verbo que a contém não é considerada termo silogístico, mas é parte do termo silogístico predicado. 
    
Quanto à extensão do termo sujeito, se subdivide em singular e comum, sendo os comuns classificados como particular e universal ou distribuído. Todos podem se apresentar num silogismo no modo definido ou indefinido. 

O termo sujeito singular é aquele que se refere a apenas um indivíduo, por exemplo, “este homem” ou “São Pedro Apóstolo”. O termo sujeito comum particular se refere a um conjunto indeterminado, mas restrito, de indivíduos, por exemplo, “alguns homens” ou “alguns apóstolos”. O termo sujeito comum universal ou distribuído se refere a todos os indivíduos contidos na extensão do termo, como “todo homem” ou “todos apóstolos”.

O modo determinado ou indeterminado, por fim, diz respeito à existência ou não de um sinal que acompanha o termo que indica a ordem da sua determinação. Os sinais “este”, “alguns” e “todo”, determinam o termo sujeito num silogismo, de maneira a facilitar a percepção sobre quais indivíduos especificamente o termo se refere. No modo indeterminado, em oposição, não há qualquer sinal acompanhando o termo, de maneira que a sua extensão será percebida pela forma pela qual ele se realiza nas coisas postas como predicado, se singulares, particulares ou universais. O termo sujeito “o homem” na proposição “o homem é mortal” ou na proposição “o homem é mentiroso” não aparece de modo expressamente determinado; a determinação “o homem” em cada uma das proposições dependerá de como ele se realiza nos predicados postos. No predicado “mortal” o sujeito “homem” se realiza em toda a sua extensão, ou seja, na extensão comum universal; no predicado “mentiroso” o sujeito “homem” se realiza na sua extensão indeterminada e limitada, ou seja, na extensão comum particular.

c.3)Propriedades do terminus enunciativo.

Passemos agora ao estudo das propriedades do termo enunciativo, a partir da qual se consegue uma compreensão maior das variáveis envolvidas no ato da comunicação. Através da comunicação, a inteligência que ouve, realizando um esforço de repetição ativa, pensa ela própria aquilo que pensou a inteligência que fala. O aumento da compreensão decorrente deste estudo ocorre porque são afastados do termo enunciativo os diferentes graus de vagueza e ambigüidade próprios da natureza das palavras. Aristóteles disse que as palavras, num discurso, substituem as coisas. Jacques Maritain acrescentou que não somente uma palavra pode possuir vários significados, como também que uma mesma palavra, com um único significado, pode ocupar num discurso o lugar de diferentes coisas. Estes são os diferentes graus de vagueza e ambigüidade das palavras e estes são os prováveis ruídos de comunicação que o estudo das propriedades do termo enunciativo visa superar. 

São propriedades do termo enunciativo a suppositio (suplência), a ampliatio (ampliação), a restrictio (restrição), a alienatio (transferência), a diminutio (diminuição) e a appellatio (reimposição). A suppositio é considerada pelos estudiosos como a principal propriedade do termo e apresenta a maior complexidade de conteúdo. As demais propriedades são apenas modificações provocadas na suppositio, daí porque é conveniente começar pelo seu estudo.

c.3.1)Suppositio.

Suppositio (suplência) significa a maneira como o termo ocupa o lugar da coisa na proposição. Perceba que o significado do termo pode ser mantido idêntico em várias proposições, mas através da sua propriedade suppositio, o mesmo termo poderá ocupar o lugar de coisas diferentes em cada uma das proposições.  Para que isso ocorra, entretanto, há uma condição a ser satisfeita: é preciso que a coisa referida pela suppositio seja legítima, segundo as exigências da cópula.  A cópula, em uma proposição, exige sempre um determinado modo de existência: existência real, que pode ser atual (no passado, presente ou no futuro) ou possível (no passado, presente ou no futuro) e existência ideal, também chamado de imaginário. 

Então, para que a suppositio ocorra é preciso que a coisa referida pelo termo exista no mesmo modo de existência imposto à proposição pela cópula. 

Esta condição, também, é o primeiro passo para que uma proposição afirmativa seja verdadeira, mas ela por si só não torna a proposição verdadeira. Além disso, também se faz necessário que haja conveniência entre o sujeito e o predicado tendo em vista a natureza de ambos. 

São exemplos de proposições em que não há suppositio (não supre): “A Princesa Isabel será uma grande estadista” ou “Adão faz penitência”. A existência das coisas que os termos “Princesa Isabel” e “Adão” substituem não estão nos mesmos modos de existência exigidos respectivamente pelas cópulas “será” e “faz”. São exemplos de proposições em que ocorre a suppositio e mesmo assim continuam falsas: “Meu amigo Pedro é vegetal” ou “Eu sou imortal”. A existência das coisas que os termos “Meu amigo Pedro” e “Eu” substituem está nos mesmos modos de existência exigidos respectivamente pelas cópulas “é” e “sou”, mas não há uma conveniência entre as naturezas dos termos sujeitos e predicados. 

Do exposto, depreende-se a seguinte regra: uma proposição afirmativa é falsa se o seu sujeito não supre a exigência da cópula. 

Esta regra não se aplica as proposições negativas, as quais podem ser verdadeiras mesmo quando não há suppositio. Por exemplo: “Richelieu não ocupa cadeira no Congresso Francês”. A coisa substituída pelo termo “Richelieu” não existe no mesmo modo de existência exigido pela cópula “ocupa”, mas a proposição é verdadeira, pois a relação de exclusão entre as naturezas dos dois termos é conveniente.

Do exposto, ainda se depreende outra regra, aplicável agora ao argumento: uma conseqüência é má se o modo de existência em relação a qual é tomada a suppositio varia do antecedente para o conseqüente. Noutras palavras, se a coisa substituída pelo termo, numa premissa qualquer, supriu a exigência da cópula num determinado modo de existência, será má a conseqüência quando esta mesma coisa substituída pelo termo suprir na conclusão a exigência da cópula num outro modo de existência.  Por exemplo, é o que acontece com o termo “quimera” no seguinte argumento: “Todo animal é (existe)”, ora “A quimera é animal”; logo “A quimera é (existe). O termo “quimera” na premissa menor substituía a coisa suprindo a exigência da cópula “é” no modo de existência ideal; já na conclusão o mesmo termo “quimera” substitui a coisa suprindo a exigência da cópula “é” no modo de existência real. Então, mesmo havendo suppositio nos dois casos, a conseqüência é má. 

c.3.1.1)Valores da Suppositio

Após a análise da existência da suppositio e os modos de existência exigidos pela cópula, passa-se, por fim, ao estudo dos diversos valores da suppositio. Na medida em que serão apresentados, outras regras referentes às proposições e aos argumentos serão deduzidas.

Antes de tudo se afirma que o valor da suppositio de um termo sujeito é determinado pelo predicado. Tais valores se dividem em duas primeiras categorias: a suppositio materialis e a suppositio formalis.

Pela suppositio materialis, o termo sujeito substitui o próprio sinal oral ou escrito. Por exemplo, na proposição “Homem é um nome de cinco letras.”, em que o termo “homem” substitui a notação da palavra e não os indivíduos que ela representa. Pela suppositio formalis, o termo sujeito substitui a coisa significada pelo sinal oral ou escrito. Por exemplo, na proposição “Todo homem é mortal”, em que são mortais os indivíduos significados pelo termo “todo homem”.

A suppositio formalis se subdivide em própria e imprópria. A suppositio formalis imprópria ocorre quando o termo sujeito substitui uma coisa significada num sentido impróprio, por metáfora. Por exemplo, na proposição “O Cordeiro foi imolado pelos pecados do mundo”, em que a coisa significada pelo termo “Cordeiro”, não é o animal, mas sim, por metáfora, é o Salvador da humanidade.  A suppositio formalis própria ocorre quando o termo sujeito substitui uma coisa significada no seu sentido próprio, por literalidade. 

A suppositio formalis, própria, se subdivide em simples e real ou pessoal. A simples é aquela em que o termo substitui a coisa no seu significado imediato enquanto natureza universal, sem abarcar qualquer indivíduo em seu conteúdo. Isto ocorre com o termo sujeito quando o seu predicado é um ser lógico. Por exemplo, nas proposições “Vertebrado é um ramificação zoológica” ou “Cordeiro é uma espécie do gênero animal”. Tanto o termo “vertebrado” quanto o termo “Cordeiro” nas citadas proposições substituem a coisa enquanto notas essenciais de um conceito, sem incluir indivíduos no seu conteúdo. A real ou pessoal é aquela em que o termo sujeito, além de significar a coisa em seu sentido imediato de natureza universal, também substitui em seu sentido mediato, abarcando os indivíduos em seu conteúdo.

A suppositio formalis, própria, real ou pessoal, se subdivide em singular e comum. A singular acontece quando o termo substitui a coisa enquanto um único sujeito individual. Por exemplo, na proposição “O homem perdeu a batalha de Waterllo”, em que o termo o “o homem” se refere ao indivíduo Napoleão Bonaparte. A comum acontece quando o termo sujeito substitui a coisa enquanto mais de um sujeito individual.

A suppositio formalis, própria, real ou pessoal, comum, se subdivide em disjuntiva, disjuncta, copulata e distributa. A disjuntiva é aquela em que o termo sujeito substitui algumas coisas que ele significa, enquanto um conjunto de sujeitos individuais determinados. Os sujeitos individuais são determinados de tal modo que a verdade enunciada sobre o conjunto parcial se aplica a todos os indivíduos nele contidos tomados separadamente. Por exemplo, na proposição “Algum homem é mentiroso”, o termo “Algum homem” substitui apenas uma parte do total dos indivíduos ao qual o termo “homem” se aplica e substitui esta parte enquanto um conjunto de sujeitos individualizados, de tal modo que a afirmação feita para o termo “Alguns homens” é também verdadeira para todos os indivíduos nele contidos, como, por exemplo, para o indivíduo “Alcibíades”, cuja proposição verdadeira seria assim formada: “Alcibíades é mentiroso”. A disjuncta é aquela em que o termo sujeito substitui algumas coisas que ele significa, enquanto um conjunto de sujeitos individuais indeterminados, tomados na confusão indistinta. Neste caso, a verdade enunciada sobre a coisa substituída pelo termo como um conjunto indistinto não se aplica aos sujeitos individuais determinados, mesmo inclusos no conjunto. Por exemplo, na proposição “Algum instrumento é necessário para tocar música”, o termo “Algum instrumento” substitui apenas uma parte do total dos indivíduos ao qual o termo “instrumento” se aplica e substitui esta parte enquanto um conjunto de sujeitos indeterminados, tomados na confusão indistinta, de tal modo que a afirmação feita para o termo “Alguns instrumentos” não é verdadeira para os indivíduos nele contidos, como, por exemplo, para o indivíduo “guitarra”, cuja proposição falsa seria assim formada: “Alguma guitarra é necessária para tocar música”. A copulata é aquela em que o termo substitui todas as coisas que ele significa, tomando-os coletivamente ou em bloco. Por exemplo, na proposição “Os apóstolos eram doze homens”, o termo “Os apóstolos” substitui o conjunto total dos indivíduos ao qual ele se aplica e substitui, enquanto coletividade, de tal modo que a afirmação feita para o termo “Os apóstolos” não é verdadeira para os indivíduos nele contidos, como, por exemplo, para o indivíduo “Pedro”, cuja proposição falsa seria assim formada: “Pedro era doze homens”.  A distributa, por fim, é aquela em que o termo substitui todas as coisas que ele significa e a cada uma delas em particular. Por exemplo, na proposição “Todo homem é mortal”, o termo “Todo homem” substitui o conjunto total dos indivíduos ao qual ele se aplica e substitui a cada um em particular de tal modo que a afirmação feita para o termo “Todo homem” é verdadeira para todos os indivíduos nele contidos, como, por exemplo, para o indivíduo “Sócrates”, cuja proposição verdadeira seria assim formada: “Sócrates é mortal.”.

A suppositio formalis, própria, real ou pessoal, comum, distributa, se subdivide em completa, incompleta e exceptiva. A completa é aquela em que o termo substitui todas as coisas que ele significa e a cada indivíduo em particular, conforme conceito e exemplo já exposto. A incompleta é aquela em que o termo substitui todas as espécies que ele significa, mas não todos os indivíduos contidos nas referidas espécies. Por exemplo, na proposição “Todo animal esteve na arca de Noé”, o termo “Todo animal” substitui o conjunto total das espécies as quais ele se aplica e substitui de tal modo que a afirmação feita para o termo “Todo animal” é verdadeira para as espécies nele contidas, como, por exemplo, para a espécie “Canina”, cuja proposição verdadeira seria assim formada: “O Caninos estiveram na arca de Noé”, mas não todos os indivíduos contidos nas referidas espécies, como, por exemplo, para o indivíduo “Snoopy”, cuja proposição falsa seria assim formada: “Snoopy esteve na arca de Noé”. A Exceptiva é aquela em que o termo substitui todos os indivíduos que ele significa, exceto um. Por exemplo, na proposição “Todo homem puramente homem nasceu com o pecado”, o termo “Todo homem puramente homem” substitui o conjunto total dos indivíduos aos quais ele se aplica e substitui de tal modo que a afirmação feita para o termo “Todo homem puramente homem” é verdadeira para os indivíduos nele contidos, como, por exemplo, para o indivíduo “Teresa”, cuja proposição verdadeira seria assim formada: “Teresa nasceu com o pecado”, mas exceto um indivíduo, como, por exemplo, para o indivíduo “Virgem Maria”, no contexto da doutrina católica, cuja proposição falsa seria assim formada: “A Virgem Maria nasceu com o pecado”.

Do exposto, sobre a suppositio formalis, própria, real ou pessoal, comum, afirma-se que as disjuntivas e distributas admitem descensus e ascensus, já as copulatas e disjuntas não admitem. Descensus ocorre quando, por inferência, as afirmações feitas sobre o termo superior é verdadeira quando também feita para os termos inferiores, enquanto o ascensus ocorre quando é verdadeira a passagem das afirmações na ordem inversa, dos termos inferiores para os superiores.

Do exposto, em todas as proposições afirmativas o predicado terá o valor de suplência da suppositio formalis, própria, real ou pessoal, comum, disjunta. Por exemplo, na proposição “Todo homem é animal”, ou na proposição “Toda execução musical exige um instrumento”, os predicados “animal” e “instrumento” substitui algumas coisas que eles significam (“algum animal” e “algum instrumento”), enquanto um conjunto de sujeitos individuais indeterminados, tomados na confusão indistinta. Assim, a verdade enunciada sobre a coisa substituída pelo termo-predicado como um conjunto indistinto não se aplica aos indivíduos determinados, mesmo inclusos no conjunto. Por exemplo, para o indivíduo “guitarra” ou para o indivíduo “Pedro”, cujas proposições falsas seriam assim formadas: “Todo homem é Pedro” ou “Toda execução musical exige uma guitarra”.

Do exposto, em contrário, em toda proposição negativa o predicado possui o valor de suplência da suppositio formalis, própria, real ou pessoal, comum, distributa. Ou seja, todos os indivíduos que o termo predicado substitui não se aplicam ao sujeito.  Por exemplo, na proposição “O homem não é um puro espírito”, em que todos os indivíduos contidos no termo-predicado “puro espírito” não são quaisquer dos indivíduos contidos no termo-sujeito “homem”. 

Do exposto, o valor de suplência do sujeito é determinado pelo predicado em toda proposição. Esta é a regra fundamental da suppositio.

Há outra possibilidade de divisão classificatória da suppositio personalis, considerando agora não mais o predicado, mas sim em relação ao verbo ou a cópula da proposição. É chamada de suppositio naturalis quando o termo sujeito substitui algo ao qual o predicado convém essencialmente, quando o predicado revela algo que participa da essência do termo sujeito. Por exemplo, na proposição “o homem é capaz de raciocinar”, em que a capacidade de raciocinar é uma nota essencial do termo “homem”, sem a qual o homem deixa de ser aquilo que é.  É chamada de suppositio accidentalis quando o termo sujeito substitui algo ao qual o predicado convém acidentalmente, quando o predicado convém ao sujeito apenas de modo secundário e derivado de uma característica essencial. Por exemplo, na proposição “O homem é mentiroso”, isto é, o predicado “mentiroso” se aplica ao termo “homem” de maneira acidental, derivada da primária característica, que é a capacidade de raciocinar.

Do exposto, segue-se que um sujeito indefinido supre universalmente (suppositio universalis) em matéria necessária e particularmente (suppositio disjunta) em matéria contingente. 

Do exposto, toda conseqüência é boa quando o gênero da suppositio não varia de uma proposição para outra.

Além da suppositio, Jacques Maritain menciona também as seguintes propriedades do termo: ampliatio, restrictio, alienatio, diminutio e appellatio. 

c.3.2)Ampliatio e restrictio.

A ampliatio e a restrictio são propriedades que descrevem funções contrárias. A primeira é a propriedade do termo que lhe permite passar de uma menor extensão para uma maior extensão, quando deslocado de uma proposição para outra. Neste caso, o termo posto na existência potencial possui maior extensão que a do mesmo termo posto na existência atual, que, por sua vez, possui maior extensão que a dos indivíduos parcialmente considerados e pertencentes à extensão do termo. O exemplo de ampliatio, cuja passagem é da existência atual para a potencial, ocorre nestas proposições: “todo homem (existindo atualmente) é falível” para “todo homem (com essência possível) é falível”. No termo “todo homem (com essência possível)” estão inclusos a essência humana e mais todos os indivíduos humanos, enquanto que no termo “todo homem (existindo atualmente)” estão inclusos todos os indivíduos humanos, mas está excluída de sua extensão a essência humana. Segue outro exemplo, agora com a passagem do termo da existência atual parcial para existência atual distribuída: da proposição “todo homem pobre é infeliz” para “todo homem é infeliz”. No termo “todo homem” estão incluso todos os indivíduos humanos, enquanto que no termo “todo homem pobre” está incluso apenas uma parte dos indivíduos humanos, os pobres. A segunda é a propriedade que o termo possui para passar de uma maior extensão para uma menor extensão, quando deslocado de uma proposição para outra. Neste caso, a regra é a seguinte: nas proposições afirmativas, é necessário que o termo mais amplo seja universal e que o sujeito exista. Um exemplo de restrictio ocorre nestas proposições: “todo homem é dotado de razão; logo, Napoleão I era dotado de razão”.

c.3.3)Alienatio, diminutio e appellatio 

A alienatio é uma propriedade que transfere o valor de uma suplência própria para uma suplência imprópria ou metafórica. Por exemplo, na proposição “Este filósofo é um asno”, em que o termo-sujeito “filósofo” possui suplência própria, mas foi referido pelo termo-predicado “asno” numa suplência imprópria. A diminutio, de outro modo, é a propriedade que leva um termo a substituir um sujeito menos extenso do que aquele que substituiria se fosse o referido termo considerado fora do contexto. Por exemplo, na proposição “todo argumento é bom na medida em que for verdadeiro”, em que o termo-sujeito “todo argumento” fora do contexto engloba muito mais indivíduos do que no contexto estabelecido pelo predicado “é bom na medida em que for verdadeiro”. Por fim, tem-se a propriedade da appellatio, que impõe ao termo-sujeito um significado dado por outro termo, tomado num sentido determinado que este por si não teria. Por exemplo, na proposição “Pedro é um grande comilão”, o termo “grande” é imposto ao sujeito “Pedro” somente em relação à faculdade de comer expressada pelo termo “comilão”. A appellatio, por isso, é diferente de um mero predicado, pois este é a determinação do sujeito, enquanto aquela reveste o sujeito de certa determinação e é investido nesta que ele recebe o predicado.  

d)Conclusão.

Finda a exposição do termo, tem-se que uma mesma palavra, com um mesmo significado, pode ocupar o lugar de coisas diferentes num dado discurso. Tem-se, também, que o valor da suplência de um termo depende da contextura da proposição a que pertence, sendo esta uma unidade, um todo, formado pelas partes, que são os termos.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Segundo Intervalo, ou A conversão de Chesterton

Prezados Amigos;

Vejam como ocorreu a conversão vivida por G. K. Chesterton, relatada no livro "Ortodoxia", publicado pela Editora Mundo Cristão. Ela nos revela que a inteligência para compreender o mundo deve procurar harmonizar as verdades parciais, obtidas nos vários momentos e setores da vida, uma vez que, dotadas ao mesmo tempo de natureza individual e de propriedades interdependentes, fazem parte, juntamente com o mistério, da Grande Verdade Complexa.

O autor, com a doutrina de um Deus pessoal (que criou o mundo separado de si) encontrou explicações para a sua conclusão intuitiva de que o mundo merece ser amado, mas não merece inteira confiança. Daí, todas as suas outras intuições, estas tidas na infância, foram explicadas por um determinado ponto da doutrina. Sua intuição de que as formas da natureza são causadas por escolhas misteriosas foi explicada pela vontade de Deus. Sua intuição de que a felicidade é condicionada e o bem é uma relíquia foi explicada pela doutrina da Queda. Sua intuição de que o universo é pequeno e aconchegante foi explicada pela natureza infinita de Deus. E, segundo o autor, compreendeu o mais importante, quando tais encaixes modificaram o seu entendimento sobre a causa para o otimismo humano: ao invés do homem ser otimista porque se encontra em completa harmonia com a natureza, o homem deve ser otimista pelo fato de não se adequar completamente ao mundo.

Enfim, o exemplo de Chesterton nos mostra que um intelectual, antes de tudo, deve ser um homem sério e honesto, que utiliza a história, as experiências e os pensamentos para verificar a consistência das doutrinas.  Segue o trecho do livro:

"E depois aconteceu uma experiência que é impossível descrever. Foi como se eu houvesse estado tateando às cegas desde o berço com duas máquinas enormes e pouco manejáveis, de formato distinto e sem conexão aparente – o mundo e a tradição cristã. Eu descobria esta falha no mundo: o fato de alguém ter de algum modo de amar o mundo sem confiar nele; de alguma forma, devíamos amar o mundo sem sermos mundanos. Descobrir essa saliente característica da teologia cristã, como uma espécie de ponta rígida, a insistência dogmática de que Deus era pessoal e criara um mundo separado de si mesmo.

A ponta do dogma encaixa-se exatamente na falha do mundo – evidentemente fora concebida para ocupar esse espaço – e então uma coisa estranha começou a acontecer. Assim que essas duas partes das duas máquinas se ajustaram, uma depois da outra, todas as demais se encaixaram, combinando com misteriosa exatidão. Eu podia ouvir peça por peça em toda a maquinaria ocupando seu lugar com uma espécie de clique de alívio. Depois de ajustada uma parte, todas as outras repetiam o ajuste, como toque após toque o relógio bate o meio-dia. Instinto após instinto era respondido por doutrina após doutrina. Ou, para variar a metáfora, eu era como alguém que houvesse avançado num país inimigo para tomar uma alta fortaleza. E quando o forte caíra, todo o país se rendera, posicionando-se em bloco atrás de mim.

A paisagem toda estava iluminada, por assim dizer, remontando aos campos de minha infância. Todas aquelas fantasias cegas da meninice que no quarto capítulo em vão tentei identificar nas trevas, de repente, tornaram-se transparentes e sadias. Eu estava certo quando senti que as rosas eram vermelhas por alguma espécie de escolha: era a escolha divina. Eu estava certo quanto senti que eu quase preferia dizer que a relva tinha a cor errada a dizer que aquela sua cor devia ser necessária: ela poderia de fato ser de qualquer outra cor.

Minha percepção de que a felicidade pendia do fio incerto de uma condição, no fim das contas, significava alguma coisa: significava a doutrina da Queda. Mesmo aqueles sombrios e informes monstros de noções que não fui capaz de descrever, muito menos de sustentar, ocuparam suavemente seus espaços como colossais cariátides do credo. A fantasia de que o cosmo não era vasto e vazio, mas pequeno e aconchegante, tinha agora um significado realizado, pois toda obra de arte deve ser pequena aos olhos do artista: para Deus as estrelas talvez fossem apenas minúsculas e caras, como diamantes. E o meu persistente instinto de que, de algum modo, o bem não era simplesmente um instrumento a ser usado, mas uma relíquia a ser preservada, como os bens do navio de Crusué – até isso fora o tímido sussurro de algo originalmente sábio, pois segundo o cristianismo, éramos de fato os sobreviventes de um naufrágio, a tripulação de um navio dourado que fora a pique antes do começo do mundo.

Mas o ponto importante era o seguinte: que tudo isso invertera totalmente a razão do otimismo. E no instante em que a inversão aconteceu, senti um súbito alívio como quando um osso é recolocado em sua articulação. Muitas vezes chamara-me de otimista, para evitar a blasfêmia por demais evidente do pessimismo. Mas todo o otimismo da época tinha sido falso e desanimador por esta razão: ele sempre tentara provar que estamos em harmonia com o mundo.

O otimismo cristão baseia-se no fato de NÃO nos encaixarmos no mundo. Eu tentara ser feliz dizendo a mim mesmo que o homem é um animal como outro qualquer que procurava seu alimento provindo de Deus. Mas agora eu estava realmente feliz, pois aprendera que o homem é uma monstruosidade. Eu estivera certo ao sentir que todas as coisas eram estranhas, pois eu mesmo era simultaneamente pior e melhor que todas elas.

O prazer do otimista era prosaico, pois baseava-se na naturalidade de tudo; o prazer cristão era poético, pois residia na antinaturalidade de tudo a luz do sobrenatural. O filósofo moderno me dissera muitas e muitas vezes que eu estava no lugar certo, e eu ainda me sentia deprimido mesmo aceitando isso. Mas eu ouvira que estava no lugar ERRADO, e minha alma exultou de alegria, cantando como um pássaro na primavera. O conhecimento revelou e iluminou aposentos esquecidos da casa escura da infácia. Agora eu sabia por que a relva sempre me parecera estranha como a barba verde de um gigante, e por que eu podia sentir saudades de casa estando em casa.”