terça-feira, 25 de maio de 2010

Termo Lógico, segundo a Irmã Miriam Josefh


Como disse no post do dia 17/05/2010, para o exercício da leitura compreensiva, tal como descrita no Livro “Cómo leer un libro” de Mortimer J Adler e Charles Van Doren, é necessário anteriormente entender os significados de Termo, Proposição e Argumento, pertencentes à matéria da Lógica. Segue neste post o significado de Termo, constante do livro “O Trivium”, escrito pela Irmã Miriam Josefh.

Ao longo da explicação dada pela autora, aparecem os seguintes termos: símbolo, palavra, conceito, comunicação e ambigüidade, os quais, portanto, são antecedentes lógicos, cujos significados devem ser fornecidos de início. Ela mesma fornece tais antecedentes.

Diz a autora: o símbolo é um signo sensível, arbitrário, cujo significado é imposto sobre ele por convenção. Sobre isto eu entendo o seguinte: que o atributo “sensível” do símbolo decorre do fato dele ser perceptível aos sentidos; o atributo “arbitrário” do símbolo decorre do fato dele ser criado ou escolhido em decorrência de uma decisão humana essencialmente livre; e o atributo “significado imposto sobre ele por convenção” decorre do fato de o significado determinado de um símbolo ser consensualmente aceito pela comunidade que o utiliza.

Diz a autora: palavras são símbolos criados para representar a realidade. As palavras se dividem em categoremáticas e sincategoremáticas. Palavras categoremáticas são aquelas que simbolizam alguma forma do ser e que podem, correspondentemente, ser classificadas nas dez categorias do ser – substância e nove acidentes. Palavras sincategoremáticas são aquelas que só tem significado junto a outras palavras, pois, por si mesma, não podem ser classificadas nas categorias. Sobre isto eu entendo o seguinte: que a existência de palavras sincategoremáticas não invalida a afirmação da autora de que palavras são símbolos criados para representar a realidade, pois as palavras sincategoremáticas, mesmo por si mesmas não representando nada na ordem do ser, só existem enquanto meios complementares para a representação da realidade, seja quando chama atenção para as substâncias (no caso dos artigos) seja quando ligam palavras, frases ou sujeitos e predicados (no caso das preposições, conjunções e pura cópula). Exemplo de palavra categoremática: pedra; exemplo de palavra sincategoremática: o “o” e o “na” da frase: o copo está na mesa. Acredito que o sentido da palavra “realidade” utilizada pela autora abrange os seres existentes e os seres imaginados pelo homem, pois há palavras criadas pelo homem para simbolizar seres imaginados, a exemplo de “dragão”. Intuo também uma espécie de natureza ética na essência das palavras, de maneira a se considerar intrinsecamente um abuso o uso de palavras para se contar mentiras. Sobre as noções de substância e acidente é recomendável a leitura do livro “Das Categorias” de Aristóteles.

Diz a autora: conceito é uma idéia que representa a realidade. Um conceito é uma idéia que existe apenas na mente, mas que tem seu fundamento fora dela: na essência que existe no indivíduo e faz dele o tipo de coisa (ente, ser) que é. Para se gerar um conceito, primeiro, os sentidos operam sobre um objeto presente diante de nós e daí produzem uma percepção do objeto; depois, os sentidos internos, fundamentalmente a imaginação, produzem um fantasma ou imagem mental do objeto, que pode ser reproduzido a vontade na ausência do objeto e, por fim, desta percepção do objeto o intelecto abstrai aquilo que é comum e necessário a todas as percepções de objetos similares, esta é a essência cuja apreensão intelectual é o conceito. Sobre isto eu entendo o seguinte: que o conceito é um bloco de pensamento intuído pelo sujeito a partir da percepção do que é comum em objetos similares. Esse bloco de pensamento representa, portanto, uma realidade ideal, tendo em vista que não representa um indivíduo isoladamente, mas sim a idéia que agrega os indivíduos num conjunto, daí porque o conceito existe de fato na mente. O bloco de pensamento intuído apreende aquilo que é chamado de essência ou substância comum dos objetos individuais agrupados na mesma espécie, ou seja, apreende aquilo que faz com que o objeto seja o que é e sem o qual o objeto deixa de ser o que é. Exemplo de essência: a essência do homem é o corpo e a alma em comunhão; sem corpo e alma o homem deixa de ser homem; sem o corpo, a alma isoladamente não pode ser chamada de homem; e sem a alma, o corpo isoladamente não pode ser chamado de homem. O bloco de pensamento precede a existência de um símbolo sobre ele imposto por convenção: o símbolo é imposto ao bloco para fins de representá-lo. Os símbolos que representam o conceito são os nomes comuns e as descrições gerais. Exemplo de conceito: “homem” ou “animal racional”

Diz a autora: comunicação é a transmissão de uma idéia de uma mente isolada de todas as outras – já que contida num corpo – para uma outra mente, igualmente isolada, através de palavras ou outros símbolos. Sobre isto eu entendo o seguinte: que os pensamentos dos indivíduos se encontram encarcerados nas suas respectivas mentes. Tais pensamentos podem ser representados por símbolos. Os símbolos são meios físicos cujos significados são compartilhados entre os indivíduos. Os símbolos, quando expressados, funcionam como veículos para o transporte do pensamento da mente de um indivíduo para a mente de outro indivíduo. Esse processo é chamado de comunicação. Assim, quando se quer comunicar, o sujeito A deve representar seu pensamento em símbolos e transmitir tais símbolos ao sujeito B; o sujeito B deve receber os símbolos transmitidos, decodificar os mesmos e, por fim, acessar o pensamento do sujeito A. Dentre os símbolos, as palavras são os mais utilizados na comunicação humana.

Diz a autora: Uma vez que uma palavra é um símbolo, um signo arbitrário sobre o qual é imposto um significado, não pela natureza nem pela semelhança, mas por convenção, é por sua natureza mesma sujeita a ambigüidade; porque, obviamente, mais de um significado pode ser imposto a um símbolo. Sobre isto eu entendo o seguinte: que ambigüidade é um fenômeno provocador de uma dificuldade de compreensão do significado que se quis transmitir de um determinado símbolo, tendo em vista que o mesmo símbolo possui mais de um significado. Ambigüidade de um símbolo é um obstáculo à comunicação precisa do pensamento.

Minhas conclusões:

Se o símbolo é um signo sensível, cujo significado é imposto sobre ele por convenção e se palavra é símbolo criado para representar a realidade, concluo que palavra é um espécie do gênero símbolo. Sendo espécie, a essência da palavra é ser um signo sensível com significado imposto por convenção; sua diferença específica, entretanto, é ser criada para representar a realidade. Logo, o significado convencionado á palavra deve corresponder com a realidade.

Se palavra é símbolo criado para representar a realidade e se conceito é a apreensão de uma idéia que representa a realidade essencial das coisas, concluo que o conceito pode ser simbolizado por palavra. Enquanto representante da realidade, a palavra é um todo, e enquanto representante da realidade essencial, o conceito simbolizado em palavra é uma parte, uma vez que a realidade é formada por substância e acidentes.

Se comunicação é a transmissão de uma idéia de uma mente para uma outra mente, através de palavras ou outros símbolos; e se ambigüidade é um fenômeno que provoca uma dificuldade de compreensão do significado que se quis transmitir de um determinado símbolo, tendo em vista que o mesmo possui mais de um significado, concluo que ambigüidade é um obstáculo à comunicação precisa do pensamento em razão de uma imperfeição da natureza do símbolo, por conseqüência, da palavra.

Dito isto, a autora utiliza as seguintes proposições para expressar o significado de termo lógico:

  1. Um Termo é uma idéia em trânsito. Sobre isto eu entendo o seguinte: a autora enfatiza no significado de termo o seu caráter essencial de ser algo voltado para a comunicação.
  2. Um Termo é um conceito comunicado através de um símbolo. Sobre isto eu entendo o seguinte: a autora enfatiza no significado de termo a inclusão do significado de conceito desde que voltado para a comunicação.
  3. Apenas as palavras categoremáticas podem simbolizar um termo lógico. Sobre isto eu entendo o seguinte: a autora enfatiza no significado de termo a comunicação de símbolos que representam exclusivamente os seres.
  4. As palavras sincategoremáticas gramaticalmente podem ser parte de um símbolo completo, o qual expressa um termo lógico. Sobre isto eu entendo o seguinte: a autora enfatiza no significado de termo que não é somente formado por palavras, mas também por sentenças, frases e orações, desde que cada uma delas forme um símbolo completo dentro de uma mensagem.
  5. Um símbolo completo é o equivalente gramatical de um termo lógico. Sobre isto eu entendo o seguinte: a autora enfatiza no significado de termo que sua identificação numa mensagem depende da identificação do símbolo completo.
  6. Um símbolo completo deve ser um nome próprio, ou uma descrição empírica, ou um nome comum, ou uma descrição geral. Sobre isto eu entendo o seguinte: a autora enfatiza no significado de termo que sua constituição é uma parte acabada dentro do todo que representa a mensagem.
  7. Um termo é sempre não ambíguo. Sobre isto eu entendo o seguinte: a autora enfatiza no significado de termo o seu caráter de no uso comunicativo sempre funcionar com referência a um único significado.
  8. O mesmo termo pode ser expressado por símbolos diferentes. Sobre isto eu entendo o seguinte: a autora enfatiza no significado de termo que o essencial é o seu significado e não o símbolo que o representa, pois o significado será sempre único, podendo haver o uso de variados símbolos para o representar.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Como ler um livro

Caros amigos, encontrei um método de estudo bem formulado, cuja aplicação está melhorando muito o meu entendimento de questões intelectuais. Foi desenvolvido e apresentado pelos escritores Mortimer J Adler e Charles Van Doren no livro “Cómo leer un libro” publicado em espanhol pela Editora Debate; método este, aliás, recomendável a todos aqueles que buscam verdadeiramente compreender melhor o objeto de seus estudos.

Neste livro, os autores expõem que a leitura deve ser uma atividade de tal modo “ativa”, que possa propiciar ao leitor sair do seu nível de compreensão anterior e inferior do assunto, para um nível posterior e superior, contido no livro que se está lendo. Para isso, descreve o processo de leitura envolvendo quatro níveis distintos, sendo o primeiro nível chamado de leitura primária, o segundo nível chamado de leitura de inspeção, o terceiro nível chamado de leitura analítica e o quarto e último nível chamado de leitura paralela.

A leitura primária é aquele tipo de leitura desenvolvida pelos recém alfabetizados, na qual se segue o texto palavra por palavra, tal como elas vão se sucedendo, e no final se chega a uma noção geral sobre o assunto. Este nível é inicial e essencial, pois possibilita a captação da literalidade do texto, mas não é suficiente para a leitura de temas mais complexos, tais como os de ciência, filosofia e teologia.

O segundo nível, a leitura de inspeção, é praticado pelo leitor quando quer apenas apreender uma vaga idéia do livro, ou quando quer descobrir se o mesmo merece ou não uma leitura aprofundada. A leitura de inspeção consiste em ler atentamente o título da obra, apreendendo todo o seu significado; lê o índice, para compreender qual o caminho percorrido pelo autor na abordagem do assunto; lê a orelha e o prefácio, para saber um pouco da vida e da obra do autor e conhecer algumas opiniões dos especialistas, e lê pequenas passagens dos capítulos e as últimas páginas do livro, de modo a tentar colher o seu resumo.

O terceiro nível de leitura, a leitura propriamente de compreensão, depende muito dos conhecimentos da lógica, pois o leitor deverá saber identificar no livro os termos, as proposições e os argumentos, todos estes conceitos pertencentes à matéria da lógica e extremamente complexos. Para a compreensão desses conceitos é recomendável a leitura dos livros “Organon” de Aristóteles, publicado pelas Editoras Guimarães e Edipro; “A Ordem dos Conceitos – Lógica Menor” de Jacques Maritain, publicado pela Editora Agir, e “O Trivium” da Irmã Miriam Josefh, publicado pela Editora É Realizações.

Na leitura analítica o leitor percorre diversas etapas: a classificação do livro (se é de ficção ou ensaio, se é prático ou teórico, se é de ciência, história, filosofia ou teologia, com todas as implicações decorrentes disto); a radiografia do livro (apreensão da sua estrutura geral); deve chegar a um acordo com o autor (através da identificação da extensão e da intenção dos termos importantes utilizados); deve descobrir o quê o autor quer comunicar (através da identificação das proposições e dos argumentos utilizados) e, por fim, deve percorrer a etapa da crítica (quando o leitor já ultrapassou as etapas anteriores, e somente depois, deverá dizer se concorda ou discorda do autor, com a exposição dos seus fundamentos; ou se suspende o julgamento porque ainda não tem condições para decidir).

Em último lugar, no quarto nível de leitura - a leitura paralela - o leitor lê no mínimo dois livros ao mesmo tempo sobre o mesmo assunto, para retirar e cotejar as idéias contidas em cada um deles, de modo a constituir uma idéia composta. Na leitura paralela são utilizados todos os níveis anteriores. Este nível de leitura é especialmente recomendável para o estudo de história.

Considere, também, que a metodologia de Adler e Van Doren se aplica a todo o tipo de instrução, não somente aquela adquirida através dos livros, mas também nas instruções recebidas através de exposições orais ou do diálogo, pois a leitura está para a escuta assim como a escrita está para a fala, daí porque se aplica à leitura, à escuta, à escrita e à fala.

Acredito que este método responde satisfatoriamente a questão do “como” compreender os assuntos de natureza intelectual.