quarta-feira, 15 de maio de 2013

Resumo do Isagoge de Porfírio - 1ª Parte


Este é um resumo do livro Isagoge de Porfírio, o Fenício, discípulo de Plotino de Licópolis, publicado pela Editora Matese, com tradução, notas e comentários de Mário Ferreira dos Santos. Será apresentado em três partes. A primeira parte, o prefácio, agora postado; a segunda parte, as cinco vozes e a terceira parte, os caracteres comuns e diferentes às cinco vozes.

1.       Prefácio

a)      O livro expõe os conhecimentos necessários para aprender as Categorias de Aristóteles, para dar definições e para tudo que é concernente a divisão e a demonstração.
 
b)      Os conhecimentos são do gênero, da diferença, da espécie, do próprio e do acidente.

c)       O livro é um breve resumo do que disseram sobre isso os antigos filósofos, especialmente os peripatéticos, apenas no que se refere aos aspectos lógicos.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Uma Nova História de Mouchete

Diariamente encontro uma multidão de miseráveis pelo caminho e sempre percebi que, além das privações materiais ou morais, compartilham entre si outra espécie de privação, que nunca soube definir.

Não afirmo, com isso, que haja qualquer relação de causalidade entre elas, nem que seja impossível sair de tal condição.

Aquela para mim obscura foi muito bem esclarecida por Georges Bernanos em "Uma Nova História de Mouchete" publicada pela Editora É Realizações:

"O pensamento de Mouchette nunca se apresenta, evidentemente, com uma bela organização lógica. Permanece vago, passa facilmente de um plano a outro. Se os miseráveis tivessem o poder de associar entre si as imagens de suas infelicidades, elas os esmagariam. Mas a miséria deles é uma infinidade de misérias, um desenrolar de acasos infelizes. Eles se parecem com cegos cujos dedos trêmulos contam moedas de valor desconhecido. Para os miseráveis, a idéia de miséria basta. A miséria deles não tem rosto."

Resumo dos Comentários de Mário Ferreira dos Santos aos Antepredicamentos

 
1.       Sobre o Livro “Das Categorias”

 
a)      Categorias ou predicamentos são os gêneros supremos. O livro é divido em três partes: a 1ª – os antepredicamentos (cap. 1 a 4) – que são os pré-requisitos para a razão dos predicamentos e sua coordenação nos seus respectivos gêneros; a 2ª – os predicamentos (cap. 5 a 9) – que são os gêneros supremos nos quais se resume todos os entes criados; e a 3 – os pós-predicamentos – que são as propriedades de todos os predicamentos ou de muitos deles.

 
2.       Análise Geral dos Antepredicamentos.

 
a)      Os predicamentos se dividem em unívocos, equívocos, análogos e denominativos.
b)      Unívocos são aqueles que se predicam pelo nome e pela sua definição essencial.
c)       Equívocos são aqueles que se predicam apenas pelo nome, mas não pela sua definição essencial.
d)      Análogos são aqueles que se predicam em parte pelo nome e em parte pela definição essencial.
e)      Não há conceitos equívocos, somente unívocos ou análogos.
f)       Segundo a complexidade ou incomplexidade, os predicamentos podem ser analisados em quatro combinações: na 1ª, se dizem do sujeito, mas não estão no sujeito (são as substâncias segundas); na 2ª, não se dizem do sujeito, mas estão no sujeito (são os acidentes singulares); na 3ª, não se dizem do sujeito e não estão no sujeito (são as substâncias primeiras); e na 4ª, se dizem do sujeito e estão no sujeito (são os acidentes universais).
g)      Quatro Regras dos antepredicamentos: 1ª, predica-se “per si” o predicamento que é segundo sua própria razão; 2ª, uma coisa difere de outra quando a razão de uma difere da razão da outra; 3ª, quando se predica algo de algum sujeito, o quê se diz do predicado também se diz do sujeito; e 4ª, nos gêneros não subalternos, as diferenças essências não são as mesmas.

 
3.       Razões dos Antepredicamentos

 
a)       A 1ª Razão considerada os antepredicamentos em tríplice aspecto: 1º, os análogos e os equívocos estão acima de todos os predicamentos; 2º, os unívocos se coordenam nos mesmos predicamentos; e 3º, os denominativos estão nos mesmos predicamentos em relação aos que estão em outros.
b)      A 2ª Razão consiste em ser a predicação coordenação das coisas simples e não das complexas. Coisas simples são aquelas que têm uma única definição e quididade.
c)       A 3ª Razão consiste em estar ou não o predicamento num sujeito e no se dizer ou não do sujeito. Por isso se dividem em duplo gênero, substâncias e acidentes, coordenados em quatro tipos, segundo a singularidade e a universalidade.
d)      A 4ª Razão consiste em conhecer a coordenação dos predicamentos em linha reta, assim como a conexão ou separação deles enquanto diferença. Duas regras decorrem daí: 1ª o que se predica do superior, predica-se dos seus inferiores; 2ª os gêneros não subordinados ente si não possuem as mesmas diferenças.

 
4.       Equívoco

 
a)      Coisas com o mesmo nome, mas a razão designada por esse nome é diversa.
b)      O conceito de Aristóteles se aplica aos “equívocos equivocados”.
c)       Quanto ao “equivoco equivocante”, a equivocação se dá no nome, não no conceito. O nome é o mesmo, mas a razão a qual se refere é outra.

 
5.       Análogos

 
a)      Analogia é um “médium” entre a univorcidade e a equivocidade.
b)      Conceitos análogos são aqueles que têm em sua razão alguma nota em comum. Esta “nota em comum” era chamada pelos pitagóricos e platônicos de “logos analogante”.
c)       Há dois tipos de analogias: 1º, de atribuição extrínseca, na qual o logos analogante faz parte ou se refere ao que é extrínseco da coisa; e 2º, de atribuição intrínseca.
 d)       Há mais dois tipos de analogias: 1º, de proporção – num dos analogados o “logos analogante” é segundo a intenção e o ser e noutro é apenas segundo a intenção; e 2º, de proporcionalidade – o logos é apenas segundo a intenção para os dois analogados.
e)      A analogia de proporcionalidade se divide em duas: 1ª, própria, quando a razão significada para o análogo se dá para ambos os analogados; e 2ª, imprópria ou metafórica, quando a razão do análogo se dá num e no outro apenas por similaridade.

 
6.       Graus de Univocação Segundo os Escotistas

 
a)      No 1º Grau – o mais perfeito – o unívoco é segundo o nome, a razão, o modo de ser a mesma ordem e a mesma perfeição. Exemplo: homem que se predica para todos os indivíduos da espécie humana.
 b)      No 2º Grau, o unívoco é segundo o nome, a razão, o modo de ser e a mesma ordem. Exemplo: animal, que se predica para homem e bruto.
 c)       No 3º Grau, o unívoco é no nome, na razão e no modo de ser.Exemplo: número, quando se predica para binário e para ternário.
d)      No 4º Grau, unívoco é no nome e na razão. É chamado de único análogo.


terça-feira, 12 de março de 2013

O Termo segundo Aristóteles
 
Pós Predicamentos (Resumos dos capítulos 10 a 15)

 
1. Capítulo 10 (Dos opostos)

 
a)                 Acepções habituais de oposição


b)                 Há quatro maneiras de oposição de um termo a outro: 1ª oposição dos relativos; 2ª dos contrários; 3ª da privação à posse e 4ª da afirmação e da negação.

c)                  Oposição dos relativos – a totalidade do ser de um consiste em ser dito do seu oposto, ou que a ele se refere de alguma maneira numa relação recíproca. Por exemplo, o dobro e a metade; o conhecimento e o cognocível.

d)                 Oposição dos contrários – não tem sua essência na referência que mantém um com o outro. Manifestam-se de dois modos: 1º quando há contrários que estão em algo ou é afirmado de algo e este algo necessariamente deve conter um ou outro, não há intermediário entre eles, por exemplo, a doença e a saúde; 2º quando há contrários em que um e outro não estão necessariamente contidos no sujeito, há intermediário entre eles, por exemplo, negro e branco, sendo intermediárias todas as outras cores. Em certos casos o intermediário possui nome, como nas cores, mas em outros o intermediário não possui, sendo denominado com a negação dos dois contrários, como entre bom e mau, cujo intermediário é o que não é nem bom nem mau.

e)                 Opostos como privação e posse – o termo designa a posse natural de algo e o contrário designa a ausência do que se é apto a receber, mas não está de nenhuma maneira.

f)                    Opostos como afirmação e negação – a afirmação e a negação são próprias das proposições e não dos termos. Somente neste caso uma é verdadeira e a outra é falsa, porque nelas está expresso uma ligação. Dentre elas, em algumas não há relação de verdade e falsidade entre as opostas, quanto o sujeito não existe. Por exemplo, se “Socrates” não existe, ambos os contrários são falsos em “Socrates está doente” e “Socrates está de boa saúde”. Os opostos necessariamente verdadeiros e falsos são “Socrates está doente” e “Socrates não está doente”.

g)                 Duas observações importantes: 1º Estar privado de algo, ou possuí-lo, não é a mesma coisa que a privação e a posse. Por exemplo, cegueira e visão são privação e posse; mas estar cego ou ter a visão é está privado de algo e possuí-lo. 2º A oposição nas proposições afirmativas e negativas se aplicam também aos sujeitos da proposição.

h)                 As maneiras como os termos se enquadram em suas respectivas oposições são próprias de cada oposição, não havendo entre elas compartilhamento. Exceto o caso dos contrários que não comportam intermediário que, por necessariamente um ou outro dever estar sempre presente no sujeito em que residem, caem sob a privação e a posse.
 

2. Capítulo 11 (Dos Contrários)

 
a)                 Por indução dos casos particulares, o contrário de um bem é um mal. Na maioria das vezes, o contrário de um mal é um bem. Mas num pequeno número de casos, o contrário de um mal pode ser um mal ou um bem, por exemplo: o contrário de excesso (um mal), pode ser carência (um mal) ou medida (um bem).

b)                 Nos contrários, a existência de um não acarreta necessariamente a existência do outro. Por exemplo, se todo mundo é saudável, a saúde existirá, com a exclusão da doença.

c)                  Os contrários existem naturalmente num sujeito que é o mesmo, pelas espécies ou pelo gênero. A saúde e a doença se encontram no corpo do animal.

d)                 Os contrários estão no mesmo gênero, em gêneros contrários, ou eles mesmos são gêneros contrários.

 
3. Capítulo 12 (Do anterior ou da prioridade)

 
a)                 De uma coisa se diz anterior de quatro maneiras: 1ª segundo o tempo (sentido fundamental); 2ª aquele cuja existência não depende do posterior, mas este depende daquele; 3º com relação à certa ordem e 4ª o que é melhor e mais estimável que o outro parece ser anterior por natureza, mas Este é o sentido mais afastado.

b)                   Outro sentido: nas coisas que são recíprocas quanto à existência, é anterior aquela que for causa de existência da outra, por exemplo: o homem real e a proposição verdadeira em que é sujeito; se o homem existe a proposição é verdadeira existe e vise versa, mas o homem real é anterior porque sem a sua existência a proposição verdadeira em que é sujeito não existiria.


4. Capítulo 13 (Da simultaneidade)

 
a)                 De duas maneiras se diz simultâneo: 1ª num sentido simples, quando duas coisas são geradas ao mesmo tempo; 2ª por natureza, cujas existências são recíprocas e uma não é causa para a outra.

b)                 As espécies que, na divisão do mesmo gênero, são opostas, são também simultâneas por natureza.  

c)                  Não há simultaneidade entre o gênero e suas espécies, pois aquele é sempre anterior a estas.

 
5. Capítulo 14 (Da moção)

 
a)                 Há seis espécies de moção: a geração, a corrupção, o aumento, a diminuição, a alteração e a moção local.

b)                 Oposição entre as moções: geração e corrupção; aumento e diminuição; movimento e repouso ou movimento em sentido contrário e alteração e repouso qualitativo ou em sentido qualitativo contrário.

c)                  Alteração é a mudança para a qualidade contrária.

 
6. Capítulo 15 (O termo “habere”, ter)

 
a)                 Diversas acepções: sentido de hábito e de disposição ou de qualquer outra qualidade; sentido de quantidade; sentido de “como num vaso”; sentido de posse; sentido afastado, por exemplo, quando se diz “ter uma mulher” que precisamente significa “habitar com ela”. Estes são os habituais, mas há outros sentidos.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


O Termo Segundo Aristóteles

Resumo dos Capítulos 4 a 9: predicamentos.

 

1.                       Substância

 

a)                      Substância primeira é o que não é afirmado de um sujeito nem está num sujeito.

 

b)                      Chamam-se substâncias segundas as espécies, que contém as substâncias primeiras, e os gêneros, que contém aquelas.

 

c)                       Segundo o que foi dito, o predicado deve ser afirmado do sujeito, tanto pelo nome quanto pela noção. Isto é válido para os gêneros e as espécies quando afirmadas das substâncias primeiras.

 

d)                      Quanto aos seres que estão em um sujeito: primeiro, na maior parte dos casos, nem seu nome nem sua noção podem ser afirmados do sujeito; segundo, noutros casos, seu nome pode ser afirmado, mas sua nação, não.

 

e)                      Tudo o mais ou é afirmado das substâncias primeiras, tomadas como sujeitos, ou está nelas. Daí porque, se não existissem as substâncias primeiras, nada mais poderia existir. Por isso, elas são chamadas de substâncias por excelência.

 

f)                     As espécies são mais substâncias que os gêneros por estarem mais próximas das substâncias primeiras. Para responder qual a natureza de uma substância primeira, é mais apropriado e preciso mencionar a sua espécie do que o seu gênero. Ao contrário, assinalar qualquer outra determinação seria inapropriado.

 

g)                       Assim como as substâncias primeiras são substratos de tudo o mais, as espécies são substratos dos gêneros. E a relação que as substâncias primeiras mantêm com tudo mais é a mesma que as espécies e os gêneros mantêm com tudo mais.

 

h)                      Quanto às espécies que não são gêneros, assim como as substâncias primeiras, uma não é em nada mais substância que a outra.

 

i)                 É caráter comum das substâncias não está em um sujeito. Isto vale tanto para as substâncias primeiras quanto para as substâncias segundas. Quanto às substâncias segundas, tanto o seu nome quanto a sua definição podem ser atribuídos ao sujeito.

 

j)                        É caráter comum das substâncias segundas e das diferenças serem atribuídos em sentido unívoco, pois todas as predicações têm por sujeito ou indivíduos ou espécies.

 

k)                      É caráter comum das substâncias primeiras significar um ser determinado. No caso das substâncias segundas, elas são atribuídas a uma multiplicidade de seres, sendo assim elas significam uma substância de tal qualidade.

 

l)                Outro caráter é que as substâncias não possuem contrários.

 

m)                     As substâncias também não são susceptíveis de mais ou de menos. Não admitir o mais ou o menos significa que a substância não pode ficar mais ou menos substância do que ela já é, ou do que outra de mesma categoria.

 

n)                      O principal caráter das substâncias é que, permanecendo idêntica e numericamente uma, é capaz de receber contrários. Este é um caráter exclusivo das substâncias. Elas são capazes de receber contrários quando sofrem uma mudança.

 

o)                      O juízo e a opinião também recebem contrários; permanecendo os mesmos, podem ser hora falso hora verdadeiro. Mas, neste caso, a recepção de contrário não decorre de uma mudança no juízo, mas sim no objeto ao qual o juízo se refere.

 

2.                       Quantidade

 

a)                      A quantidade é discreta ou contínua, e também é constituída de partes com posições relacionadas entre si, ou que não tem posições relacionadas entre si.

 

b)                      São exemplos de quantidade discreta o número e o discurso; de quantidade contínua, a linha, a superfície, o corpo, o tempo e o lugar.

 

c)                       Discreta é a quantidade cujas partes não possuem limite comum onde se tocam; estão sempre separadas.

 

d)                      Contínua é a quantidade cujas partes possuem limite comum onde se tocam. Para a linha, o limite comum é o ponto; para a superfície, é a linha; para o corpo, é a superfície; para o tempo, o presente é o limite comum do passado e do futuro; e para o lugar, são as partes do corpo que ele contém.

 

e)                      A linha, a superfície, o corpo e o lugar também são quantidades cujas partes ocupam posições recíprocas entre si. 

 

f)                    O número, o tempo e o discurso são quantidades cujas partes não ocupam posições recíprocas entre si. As partes do número e do tempo possuem certa ordem, que vai do anterior para o posterior, mas não ocupam posições. O discurso não ocupa posição porque suas partes não subsistem depois de pronunciada.

 

g)                       Somente a linha, a superfície, o corpo, o lugar, o número, o tempo e o discurso são quantidades no sentido próprio, tudo o mais é quantidade por acidente, na medida em que é considerando em vista de uma daquelas em sentido próprio.

 

h)                      A quantidade não admite qualquer contrário. Grande é o contrário de pequeno e o muito do pouco, mas estes não são quantidade, porque não existem por si; são relativos.

 

i)               A quantidade não é susceptível de mais e de menos.

 

j)                    Principalmente, o que é próprio, exclusivo da quantidade, é que se lhe pode atribuir o igual e o desigual. Das outras categorias, no máximo, pode se dizer semelhante ou dessemelhante.

 

3.                       Relação

 

a)                      Relativas são as coisas cujo ser consiste totalmente em serem ditas dependentes de outras coisas ou em se referirem de alguma maneira a outra coisa.

 

b)                      São relativos os seguintes termos: estado, disposição, sensação, ciência e posição.

 

c)                       Os relativos podem ter contrários, mas nem todos os relativos possuem contrários. O vício é o contrário da virtude, mas o dobro não possui contrário.

 

d)                      Os relativos admitem o mais e o menos, mas nem todos os relativos admitem o mais e o menos. O igual e o desigual se dizem segundo o mais e o menos; mas o dobro não é mais ou menos dobro.

 

e)                      Todos os relativos possuem correlativos.

 

f)                    O modo da relação segue o seguinte modelo: escravo é escravo do senhor e dobro é dobro da metade, assim como a idêntica reciprocidade nos inversos. Entretanto, há uma diferença de caso na enunciação no que se refere ao conhecimento: o conhecimento é do cognoscível e o cognoscível é ao conhecimento.

 

g)                      A relação deve ser tomada de maneira adequada, por exemplo, asa não é relativo a pássaro, porque há seres que a possuem e não são pássaros, daí que é adequado relacionar asa ao alado e este é correlativo daquela.

 

h)                      Há situações em que não há palavra para designar o correlativo, por exemplo, leme em relação à nave não é adequando, porque há naves sem leme; a relação adequada é leme com o “provido de leme”, e esta é a melhor maneira de designar o correlativo quando não há nome: é usar o nome do primeiro termo e aplicá-los as coisas pertinentes. 

 

i)            Não há relação quando um dos termos for designado por um nome que apenas expressa acidentalmente o correlativo, é o caso de escravo e homem, que não possui correlação, uma vez que homem expressa apenas acidentalmente a condição de senhor.

 

j)                        Numa relação devem ser afastados dos termos todos os caracteres que são acidentais à correlação.

 

k)                      Os relativos devem ser designados adequadamente, se existe um nome, este deve ser usado, se não existe, é necessário criar um.

 

l)              Na maioria dos casos há simultaneidade natural entre os relativos, além deles se anularem reciprocamente. Se existe um é porque o outro também existe e se um deixar de existir o outro também deixa. Alguns relativos, entretanto, não se enquadram nesta propriedade, como, por exemplo, a ciência e seu objeto, a sensação e o sensível.

 

m)                    Não se cogita que as substâncias primeiras e as suas partes integram os relativos. Homem e boi não são de alguma coisa, assim como cabeça não se diz uma cabeça de alguém, mas a cabeça de alguém. 

 

n)                      Somente em alguns casos, cogita-se que as substâncias segundas podem ser relativas, tomando como base o fato de uma coisa de certa forma ser referida a outra. Por exemplo, cabeça se diz do que ela é uma parte. Mas esta não é a essência do relativo, e sim os termos serem apenas enquanto afetado por uma relação.

 

o)                      Nenhuma substância integra os relativos.

 

p)                      Se se conhece uma coisa particular como um relativo, então se conhece a outra coisa particular correlativa. Se se diz que uma determinada coisa é dupla, então se conhece o de que ela é dupla.

 

q)                      É difícil assegurar alguma coisa de positivo sem prestar atenção a muitos aspectos, mas não é inútil discorrer sobre estes pontos.

 

4.                       Qualidade

 

a)                      Qualidade é aquilo em virtude do qual se diz que alguma coisa é tal. Os seres que possuem certa qualidade são chamados de tal qualidade em razão de sua presença neles.

 

b)                      O primeiro sentido de qualidade é chamado hábito e disposição. O hábito difere da disposição por ter mais duração e estabilidade.

 

c)                       São hábitos a ciência e a virtude.

 

d)                      Disposição são qualidades que com facilidade podem ser movidas e com rapidez mudadas.

 

e)                      Os hábitos são ao mesmo tempo disposições; as disposições, apenas, não são hábitos.

 

f)                     O Segundo sentido de qualidade é aquele que decorre de uma aptidão ou inaptidão natural. É o que se diz dos bons ou maus lutadores, dos sãos e dos doentes, segundo a respectiva aptidão ou inaptidão natural para a luta e para suportar tudo que lhes acontece.

 

g)                      O terceiro sentido de qualidade é formado pelas qualidades afetivas e pelas afecções. Qualidades afetivas são aquelas capazes de produzir uma modificação nas sensações, ou pelo fato delas próprias serem o resultado de uma modificação, ou pelo fato de ter sua fonte nas afecções estáveis e permanentes, ou porque toma a sua origem no temperamento natural do sujeito. Afecção são qualidades provenientes de causas fáceis de destruir e rapidamente modificadas. Chama-se colérico um homem que possui este temperamento, sendo colérico uma qualidade afetiva; mas aquele que, por algum motivo pontual, põe-se em cólera, porque tomado por uma afecção, não é colérico.

 

h)                      O quarto sentido de qualidade é a forma ou a figura; o caráter do que é reto e a curvatura, assim como outras propriedades semelhantes.

 

i)                 Sem dúvida se poderia descobrir outros sentidos de qualidade, mas os que foram citados sãos os principais.

 

j)                       Na maior parte, o nome da coisa qualificada é derivado da qualidade. Alguma coisa é chamada de branco em razão de possuir a brancura.    

 

k)                      Na maioria das vezes, a contrariedade pertence à quantidade. Por exemplo, a virtude é contrária ao vício; a negrura, a brancura, etc. Isto não se aplica, entretanto, às cores, tais como vermelho, amarelo, que não possuem contrários. O contrário de uma qualidade será sempre outra qualidade.

 

l)              A maioria das qualidades admitem o mais e o menos. Uma coisa portadora de uma qualidade pode ser mais ou menos portadora que outra, assim como, através do aumento ou diminuição, pode ser tornar mais ou menos portadora da qualidade que antes possuía. Entretanto, as formas triangulares, tetragonais, por exemplo, não admitem mais ou menos.

 

m)                    O semelhante e o dessemelhante são exclusivos das qualidades.

 

n)                      O autor reconhece que na sua exposição sobre as qualidades inseriu muitos relativos, tais como os hábitos e as disposições. Disse também que em praticamente todos os casos, os gêneros são relativos, enquanto que nenhuma das espécies o é. Tal é o exemplo de ciência enquanto gênero, que sempre se diz ciência de alguma coisa; mas isto não se aplica a nenhuma espécie de ciência.

 

o)                      As ciências particulares, em virtude das quais somos qualificados de sábios, são qualidades.

 

p)                      É possível classificar algo simultaneamente em duas categorias.

 

5.                       Da ação, da afecção e das outras categorias.

 

a)                      A ação e a afecção admitem a contrariedade e são suscetíveis de mais e de menos.

 

b)                      Falou da posição no capítulo dos relativos, estabelecendo ali que estes derivam os seus nomes das posições correspondentes.
 
 
c)             Quanto ao tempo, o lugar e a posse, em razão de suas naturezas, nada mais têm a acrescentar ao que foi