sábado, 7 de maio de 2011

Anivesário de Juliano

O meu filhinho completa hoje 4 anos de vida. Em homenagem a ele, como presente, deixo transcrito aqui o Salmo 98 (97).

Justiça do Rei divino

Cantai ao Senhor um cântico novo,
porque ele fez maravilhas;
foi sua destra que realizou a salvação,
foi seu santo braço.
O Senhor manifestou sua salvação,
aos olhos das nações revelou sua justiça.
Recordou-se de seu amor e de sua fidelidade
para com a casa de Israel;
os confins da terra contemplaram
a obra salvífica de nosso Deus.
Aclama o Senhor, terra inteira!
Prorrompei em jubilosos cantos,
tocai ao Senhor na cítara,
na cítara, acompanhando o canto!
Com clarins e ao som das trombetas,
aclamai o Rei, o Senhor!
Estronde o mar e tudo que nele contém,
o mundo e seus habitantes!
Batam palmas os rios,
igualmente os montes gritem de alegria
diante do Senhor porque ele vem
para julgar a terra;
ele julgará o mundo com justiça
e os povos com equidade.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A propósito da semana santa

A propósito da semana santa, folheando os meus livros a procura de alguma luz para compreender melhor este momento e o meu lugar no seu contexto, deparei-me com uma  passagem do livro "A Descoberta do Outro" de Gustavo Corão. 

Hoje em dia não temos mais os motivos de 1943 para nos vangloriarmos de uma Igreja bem instalada no mundo ou de uma superioridade intelectual católica. Ao contrário, a produção intelectual católica e a posição que a Igreja vem ocupando no mundo é motivo para preocupações; mas, a despeito de já não existirem tais circunstâncias, remanesce a mesma necessidade de 1943 para ouvirmos as duras palavras de Corção. A história do Calvário não é um história: é um mistério, e o cristão deve colocá-la diante de si  num eterno presente, como quem carrega uma cruz durante todo o tempo.   

Eu não posso deixar de dizer que Gustavo Corção é um dos meus autores favoritos. Segue o texto:

"O caminho parecer fácil e largo; mais adiante um pouco, ali mesmo naquela volta do caminho, naquele ângulo do calendário, marcado por um solstício e por um plenilúnio, dir-se-ia que ele encontrará um monumento enguirlandado, um arco triunfal, um obelisco: mas de repente ele encontra a cruz. 

Esse monumento é decisivo e essa prova é sempre dura; a glória da cruz, vista pela fé, é uma prova que o homem novo tem de carregar todos os dias, entrando em luta com o homem velho que se tinha instalado no mundo com suas convicções, seus tiques intelectuais e sobretudo seu critério de vitória. Justamente quando lhe parecia estar próximo um novo triunfo, um acréscimo de prestígio, um formidável sucesso, ele esbarra na Cruz. O homem novo sobressalta-se e esperneia sob o aguilhão; apalpa-se, busca apoio no seu próprio discernimento que até ali o sevira como bússola fiel para indicar com nitidez os caminhos da credibilidade e que agora parece ter enlouquecido sob a ação de estranho magnetismo. Ele mesmo pedira a fé. Pusera de joelhos seu corpo, sua alma, suas convicções, sua inteligência, pusera tudo de joelhos; submetera a razão a prova última do reconhecimento e do amor; escolhera; decidira casar-se em vez de ficar a vida inteira excorgitando; optara; pedira a Deus com amoroso temor a nova aliança de noivado... E agora, ao levantar-se, sente nos ombros o peso duma cruz.

Muitas vezes, lendo as páginas do novo testamento, romanticamente, para lhes achar um pitoresco, para entrever um colorido histórico nas cenas evangélicas, e ver uma estrada da Samaria batida de sol, achamos fácil reconhecer o Cristo e pasmamos assombrados ante o terrível equívoco dos judeus. O drama da paixão parece-nos evidente, claro, compreensível; qualquer um de nós não gostará de ser equiparado aos soldados romanos que jogavam dados praguejando ou a algum mercador que passasse ao longe tangendo seus asnos carregados de fazenda, sem voltar sequer o rosto preocupado e ganancioso para ver a Santa Agonia. Lendo a paixão assim, meditando-a como se fosse romance de enredo muito sabido, colocamo-nos, como é usual nessas leituras, do lado do autor e em pé de igualdade. Saboreamos a superioridade de saber ponto por ponto o que vai acontecer; sabemos que o pretor é aquele que vai lavar as mãos e Caifás é o que vai rasgar as vestes. E já sabemos que o Cristo é o Cristo. Já sabemos. É ele o Redentor do qual dois mil anos falarão e para o qual serão erigidas as catedrais de Estrasburgo e Chartres. Sentimo-nos imensamente superiores aos indiferentes do Calvário e estremecemos de horror diante dos que esbofetearam, insultaram e cuspiram a Santa Face.

Mas convém pensar um pouco: qual de nós poderia realmente suportar a dura prova da cruz? Qual de nós poderia aguentar a glória da cruz, a insuportável visão do opróbio, deixando seu velho critério de vitória, saducaico ou farisaico, baseado no prestígio ou no sucesso? Qual de nós poderia ver atrás daquele rosto ensanguentado e cuspido a Face dum Rei?

Parece facil agora, porque já lemos o texto muitas vezes e temos uma alegoria da paixão gravada em nossa memória. Parece fácil, mas agora mesmo, em cada instante, em cada dia, apesar de saber de cor o enredo da paixão, apesar da graça do nosso batismo, não somos nós mesmos que buscamos o triunfo fácil de ter razão e prestígio, não somos nós mesmos que esperneamos diante da loucura e do escândalo da exinanição do Cristo em sua Igreja?

Realmente, cada vez que nós desejamos a glória mundana ou política de sermos católicos, ou nos espantamos diante dos insucessos do Vaticano na política internacional, cada vez que nos envergonhamos de ouvir um sermão medíocre ou adotamos uma atitude de irritação diante da vida escandalosa de algum sacerdote, estamos exatamente como os judeus estavam diante da cruz e de nada nos adiantou saber de cor o enredo da paixão. O cristão está de pé diante da paixão do Espírito Santo e somente na fé pode suportar esse terrível espetáculo.

E ai está. As perguntas que fazíamos atrás, sobre as nossas probabilidades de reconheciomento diante do Calvário, pareciam idiotas como o são todas as suposições baseadas em retrospecções históricas. Não tem sentido, fora do recurso retórico, perguntar o que seria hoje São Paulo ou o que faria um de nós diante de Nabucodonosor. Mas a história do Calvário não é uma história: é um mistério. O nosso memorar não tem o sentido duma retrospecção histórica, mas de uma visão no mistério da fé. Se alguma tolice havia, ela estava antes no modo impressionista, hitórico, colorido, sentimental, de enfrentar a paixão, donde saía a extraordinária presunção de estarmos livres daquele espetáculo da cruz, isentos de seu escândalo e de sua loucura, blindados por dois mil anos de história e pelas pinturas alegóricas da Renascença.

Por isso o homem novo, na volta de seu caminho, espeneia sob o aguilhão. Estava na iminência de ter razão e de tirar daí um renovado prestígio. Apesar da fé do seu batismo já tinha começado seus cálculos sobre a respeitabilidade do quarteirão e já entrevia um Igreja decente, bem instalada no mundo, triunfante, bem sucedida, acatada por causa de Maritain, prestigiada pela conversão de Bergson, uma Igreja confortável, uma igreja sem cruz."

sábado, 22 de janeiro de 2011

Termo, segundo Jacques Maritain

4. O termo.

a)Apresentação

O ato do pensamento é de natureza imaterial, acontece no íntimo do indivíduo. Inicia-se da maneira já estudada através da simples apreensão e da formação do conceito, e se processa com o estabelecimento de relações através dos juízos e raciocínios. Por isso, a rigor, não é absolutamente necessário o uso de sinais materiais para a sua execução. 

Entretanto, o homem vive em sociedade, não basta a ele elucubrar no seu íntimo suas concepções sobre as coisas, pois sente necessidade de raciocinar tanto para adquirir o conhecimento transmitido por outros quanto para transmiti-lo a outros. Foi para essa atividade que criou um conjunto de sinais sensíveis aos aparelhos auditivos, daí porque materiais, com significados convencionalmente estabelecidos, para servirem de instrumento de comunicação do conhecimento: a linguagem. 

Mesmo assim, após a invenção da linguagem, a comunicação não era plenamente eficaz, em razão da fala não ecoar entre homens muito afastados entre si, seja no espaço ou no tempo. Não era possível falar com quem estava em outras terras, nem era possível deixar uma mensagem para quem o sucedesse no tempo. Visando superar tais dificuldades, o homem criou um conjunto de sinais sensíveis aos olhos, também materiais, também com significados convencionalmente estabelecidos, que representam os sinais sonoros, os quais poderiam ser levados aos olhos dos outros, localizados em lugares distantes, ou armazenados, para serem vistos depois: a escrita.

b)A Dictio

No contexto da fala e da escrita é que surge aquilo que os antigos chamavam de dictio (palavra) e os modernos chamam de termo, num sentido amplo, que é toda unidade sonora ou escrita, articulada, que convencionalmente significa um conceito. Portanto, cada palavra corresponde a um conceito, e convencionalmente se estabeleceu que aquela determinada palavra significasse aquele determinado conceito.

Já aprendemos que através da simples apreensão a coisa externa existente no mundo é substituída pela sua imagem que é apresentada ao espírito (o conceito objetivo) e que o espírito, a partir daí, produz um sinal mental da coisa (o conceito mental). Agora aprenderemos que a dictio é a substituição sonora ou escrita deste sinal mental e desta imagem da coisa que se apresentou ao espírito. Para os tomistas, a dictio substitui imediatamente o conceito mental, e substitui principalmente o conceito objetivo.

b.1)Divisões da Dictio

A dictio, por sua vez, além de se dividir em todas as categorias nas quais também se divide o conceito, também pode ser classificada em termos categoremáticos e termos sincategoremáticos. Os termos categoremáticos são aqueles que significam algo que por si só se perfaz na ordem dos seres, por exemplo, “pedra” ou “homem”; diferentemente, os termos sincategoremáticos são aqueles que significam algo que não possui uma existência autônoma, são apenas modificações da coisa, por exemplo, “todo”, “algum” ou “depressa”.

Os termos categoremáticos se subdividem entre termos absolutos e termos relativos. Os absolutos são aqueles que significam exclusivamente notas essenciais, por exemplo, “homem”, “a humanidade” ou “a brancura”; os relativos são aqueles que significam atributos de uma essência, por exemplo, “branco”, “sábio” ou “pai”.

A dictio se divide ainda em termos incomplexos e termos complexos. São incomplexos quando sua constituição é formada por uma única unidade significativa; por exemplo, “pedra” ou “homem”; são complexos quando sua constituição é formada por mais de uma unidade significativa, por exemplo, “homem instruído” ou “garça de longo pescoço”. 

c)O terminus
Num sentido mais restrito, entretanto, a dicto (termo lato sensu) pode ser analisada enquanto terminus (termo strictu sensu). O terminus, assim como indica a etimologia da palavra, é o último elemento no qual se resolve os compostos lógicos e, reversamente, é o primeiro elemento utilizado para a construção dos compostos lógicos. Este terminus se divide em termo enunciativo, aquele utilizado para a construção da simples proposição, e em termo silogístico, aquele utilizado como elemento da composição silogística.
c.1)O terminus enunciativo
Os termos enunciativos, por sua vez, possuem uma grande subdivisão, que é entre nome e verbo. Toda proposição se reduz em última instância a nome e verbo, sendo tais elementos as duas partes mínimas de uma proposição, considerando que o nome exerce a função de extremo estável e o verbo a função de meio que une os extremos. 

O verbo é um termo enunciativo composto de duas partes. A primeira parte, embutida em todo verbo, é o verbo “ser”, através do qual se aplica um atributo (nome-predicado) a um ente (nome-sujeito), e é nessa condição que é chamado pelos lógicos de copúla. O verbo “ser” também sempre carrega consigo a função do atributo “existente”, daí porque em toda proposição se afirma ou nega duas existência: a existência da determinação de um nome-sujeito por um nome-predicado; e a existência do nome-sujeito em si mesmo. Segue-se, portanto, a regra lógica de que uma proposição é verdadeira quando o predicado convém ao sujeito e quando o sujeito existe no modo de existência exigido pela cópula. Por exemplo, na proposição “Napoleão I era o imperador da França”, temos o seguinte: 1º, o verbo ser “era” liga o sujeito “Napoleão I” ao predicado “Imperador da França” numa relação de identificação entre os dois; 2º, o verbo ser “era” afirmou a existência de uma determinação de sujeito “Napoleão I” pelo predicado “Imperador da França”; e 3º, o sujeito “Napoleão I” existe no modo de existência atual, real e no passado, mesmo modo de existência exigido pela cópula “era”. 

A cópula, portanto, significa a afirmação da existência atual ou possível, de uma relação de identificação entre dois termos. Tal relação ocorre numa determinada coisa atual ou possível, real ou ideal.

Há duas maneiras do verbo ser se manifestar numa proposição, algo que inclusive provoca a existência de dois tipos de proposições. Na primeira, o verbo ser sozinho exerce a dupla função de cópula e de atributo, sendo este atributo exclusivamente o próprio predicado da proposição. Isto ocorre, por exemplo, na proposição “Eu sou”, em que o verbo ser exerce a função de cópula, para ligar o nome-sujeito “eu” ao atributo “existente”, e exerce ele mesmo a função do atributo “existente” aplicado ao sujeito. Portanto, a citada proposição se equivale a “eu sou existente”. Tais proposições são chamadas de “verbo-predicado”. Na segunda, o verbo ser exerce essencialmente a função de cópula, pois o atributo se apresenta separado do verbo. Assim é na proposição “O homem é um animal racional”. Tais proposições são denominadas de “verbo-cópula”. 

A segunda parte de todo verbo é o atributo que acompanha o verbo ser. O atributo dá ao verbo uma significação carregada do modo temporal, representa uma ação ou um movimento efetuado no tempo, assim é quando se enuncia algo, mesmo quando o enunciado é de algo que representa verdades intemporais. Por exemplo, as proposições “O triângulo tem a soma de seus dois ângulos igual a dois ângulos retos” ou “Deus é bom” veicula verdades intemporais, ligam coisas eternas, entretanto o significado dos verbos “tem” e “é” se apresentam num modo de ação que se passa no tempo. 

Do exposto, um verbo como escrever é composto das seguintes partes: do verbo ser, que permite a ligação do verbo escrever com um sujeito qualquer; do atributo existente contido no verbo ser, que afirma ou nega a existência do sujeito a ser ligado, e do atributo escrevente, que se encontra ali para ser ligado ao sujeito. Então, uma proposição como “Eu escrevo” equivale à proposição “Eu sou escrevente” e assim se passa com todos os verbos.

O termo enunciativo nome, por sua vez, significa a coisa de modo intemporal e estável, mesmo quando ele se refere a coisas em cuja essência esteja o tempo e o movimento, ele significa tal coisa de modo estável, permanente. Quando se diz, por exemplo, “o movimento” ou “o tempo”, tais nomes, mesmo se referindo a coisas que não possuem uma natureza estável, significam tais coisas ao modo de um elemento estável.

c.2)O terminus silogístico

Considerando agora o termo silogístico, se divide em sujeito e predicado. Sujeito é aquele em quem a cópula aplica uma determinação, e predicado é a determinação aplicada pela cópula. A pura cópula ou o verbo que a contém não é considerada termo silogístico, mas é parte do termo silogístico predicado. 
    
Quanto à extensão do termo sujeito, se subdivide em singular e comum, sendo os comuns classificados como particular e universal ou distribuído. Todos podem se apresentar num silogismo no modo definido ou indefinido. 

O termo sujeito singular é aquele que se refere a apenas um indivíduo, por exemplo, “este homem” ou “São Pedro Apóstolo”. O termo sujeito comum particular se refere a um conjunto indeterminado, mas restrito, de indivíduos, por exemplo, “alguns homens” ou “alguns apóstolos”. O termo sujeito comum universal ou distribuído se refere a todos os indivíduos contidos na extensão do termo, como “todo homem” ou “todos apóstolos”.

O modo determinado ou indeterminado, por fim, diz respeito à existência ou não de um sinal que acompanha o termo que indica a ordem da sua determinação. Os sinais “este”, “alguns” e “todo”, determinam o termo sujeito num silogismo, de maneira a facilitar a percepção sobre quais indivíduos especificamente o termo se refere. No modo indeterminado, em oposição, não há qualquer sinal acompanhando o termo, de maneira que a sua extensão será percebida pela forma pela qual ele se realiza nas coisas postas como predicado, se singulares, particulares ou universais. O termo sujeito “o homem” na proposição “o homem é mortal” ou na proposição “o homem é mentiroso” não aparece de modo expressamente determinado; a determinação “o homem” em cada uma das proposições dependerá de como ele se realiza nos predicados postos. No predicado “mortal” o sujeito “homem” se realiza em toda a sua extensão, ou seja, na extensão comum universal; no predicado “mentiroso” o sujeito “homem” se realiza na sua extensão indeterminada e limitada, ou seja, na extensão comum particular.

c.3)Propriedades do terminus enunciativo.

Passemos agora ao estudo das propriedades do termo enunciativo, a partir da qual se consegue uma compreensão maior das variáveis envolvidas no ato da comunicação. Através da comunicação, a inteligência que ouve, realizando um esforço de repetição ativa, pensa ela própria aquilo que pensou a inteligência que fala. O aumento da compreensão decorrente deste estudo ocorre porque são afastados do termo enunciativo os diferentes graus de vagueza e ambigüidade próprios da natureza das palavras. Aristóteles disse que as palavras, num discurso, substituem as coisas. Jacques Maritain acrescentou que não somente uma palavra pode possuir vários significados, como também que uma mesma palavra, com um único significado, pode ocupar num discurso o lugar de diferentes coisas. Estes são os diferentes graus de vagueza e ambigüidade das palavras e estes são os prováveis ruídos de comunicação que o estudo das propriedades do termo enunciativo visa superar. 

São propriedades do termo enunciativo a suppositio (suplência), a ampliatio (ampliação), a restrictio (restrição), a alienatio (transferência), a diminutio (diminuição) e a appellatio (reimposição). A suppositio é considerada pelos estudiosos como a principal propriedade do termo e apresenta a maior complexidade de conteúdo. As demais propriedades são apenas modificações provocadas na suppositio, daí porque é conveniente começar pelo seu estudo.

c.3.1)Suppositio.

Suppositio (suplência) significa a maneira como o termo ocupa o lugar da coisa na proposição. Perceba que o significado do termo pode ser mantido idêntico em várias proposições, mas através da sua propriedade suppositio, o mesmo termo poderá ocupar o lugar de coisas diferentes em cada uma das proposições.  Para que isso ocorra, entretanto, há uma condição a ser satisfeita: é preciso que a coisa referida pela suppositio seja legítima, segundo as exigências da cópula.  A cópula, em uma proposição, exige sempre um determinado modo de existência: existência real, que pode ser atual (no passado, presente ou no futuro) ou possível (no passado, presente ou no futuro) e existência ideal, também chamado de imaginário. 

Então, para que a suppositio ocorra é preciso que a coisa referida pelo termo exista no mesmo modo de existência imposto à proposição pela cópula. 

Esta condição, também, é o primeiro passo para que uma proposição afirmativa seja verdadeira, mas ela por si só não torna a proposição verdadeira. Além disso, também se faz necessário que haja conveniência entre o sujeito e o predicado tendo em vista a natureza de ambos. 

São exemplos de proposições em que não há suppositio (não supre): “A Princesa Isabel será uma grande estadista” ou “Adão faz penitência”. A existência das coisas que os termos “Princesa Isabel” e “Adão” substituem não estão nos mesmos modos de existência exigidos respectivamente pelas cópulas “será” e “faz”. São exemplos de proposições em que ocorre a suppositio e mesmo assim continuam falsas: “Meu amigo Pedro é vegetal” ou “Eu sou imortal”. A existência das coisas que os termos “Meu amigo Pedro” e “Eu” substituem está nos mesmos modos de existência exigidos respectivamente pelas cópulas “é” e “sou”, mas não há uma conveniência entre as naturezas dos termos sujeitos e predicados. 

Do exposto, depreende-se a seguinte regra: uma proposição afirmativa é falsa se o seu sujeito não supre a exigência da cópula. 

Esta regra não se aplica as proposições negativas, as quais podem ser verdadeiras mesmo quando não há suppositio. Por exemplo: “Richelieu não ocupa cadeira no Congresso Francês”. A coisa substituída pelo termo “Richelieu” não existe no mesmo modo de existência exigido pela cópula “ocupa”, mas a proposição é verdadeira, pois a relação de exclusão entre as naturezas dos dois termos é conveniente.

Do exposto, ainda se depreende outra regra, aplicável agora ao argumento: uma conseqüência é má se o modo de existência em relação a qual é tomada a suppositio varia do antecedente para o conseqüente. Noutras palavras, se a coisa substituída pelo termo, numa premissa qualquer, supriu a exigência da cópula num determinado modo de existência, será má a conseqüência quando esta mesma coisa substituída pelo termo suprir na conclusão a exigência da cópula num outro modo de existência.  Por exemplo, é o que acontece com o termo “quimera” no seguinte argumento: “Todo animal é (existe)”, ora “A quimera é animal”; logo “A quimera é (existe). O termo “quimera” na premissa menor substituía a coisa suprindo a exigência da cópula “é” no modo de existência ideal; já na conclusão o mesmo termo “quimera” substitui a coisa suprindo a exigência da cópula “é” no modo de existência real. Então, mesmo havendo suppositio nos dois casos, a conseqüência é má. 

c.3.1.1)Valores da Suppositio

Após a análise da existência da suppositio e os modos de existência exigidos pela cópula, passa-se, por fim, ao estudo dos diversos valores da suppositio. Na medida em que serão apresentados, outras regras referentes às proposições e aos argumentos serão deduzidas.

Antes de tudo se afirma que o valor da suppositio de um termo sujeito é determinado pelo predicado. Tais valores se dividem em duas primeiras categorias: a suppositio materialis e a suppositio formalis.

Pela suppositio materialis, o termo sujeito substitui o próprio sinal oral ou escrito. Por exemplo, na proposição “Homem é um nome de cinco letras.”, em que o termo “homem” substitui a notação da palavra e não os indivíduos que ela representa. Pela suppositio formalis, o termo sujeito substitui a coisa significada pelo sinal oral ou escrito. Por exemplo, na proposição “Todo homem é mortal”, em que são mortais os indivíduos significados pelo termo “todo homem”.

A suppositio formalis se subdivide em própria e imprópria. A suppositio formalis imprópria ocorre quando o termo sujeito substitui uma coisa significada num sentido impróprio, por metáfora. Por exemplo, na proposição “O Cordeiro foi imolado pelos pecados do mundo”, em que a coisa significada pelo termo “Cordeiro”, não é o animal, mas sim, por metáfora, é o Salvador da humanidade.  A suppositio formalis própria ocorre quando o termo sujeito substitui uma coisa significada no seu sentido próprio, por literalidade. 

A suppositio formalis, própria, se subdivide em simples e real ou pessoal. A simples é aquela em que o termo substitui a coisa no seu significado imediato enquanto natureza universal, sem abarcar qualquer indivíduo em seu conteúdo. Isto ocorre com o termo sujeito quando o seu predicado é um ser lógico. Por exemplo, nas proposições “Vertebrado é um ramificação zoológica” ou “Cordeiro é uma espécie do gênero animal”. Tanto o termo “vertebrado” quanto o termo “Cordeiro” nas citadas proposições substituem a coisa enquanto notas essenciais de um conceito, sem incluir indivíduos no seu conteúdo. A real ou pessoal é aquela em que o termo sujeito, além de significar a coisa em seu sentido imediato de natureza universal, também substitui em seu sentido mediato, abarcando os indivíduos em seu conteúdo.

A suppositio formalis, própria, real ou pessoal, se subdivide em singular e comum. A singular acontece quando o termo substitui a coisa enquanto um único sujeito individual. Por exemplo, na proposição “O homem perdeu a batalha de Waterllo”, em que o termo o “o homem” se refere ao indivíduo Napoleão Bonaparte. A comum acontece quando o termo sujeito substitui a coisa enquanto mais de um sujeito individual.

A suppositio formalis, própria, real ou pessoal, comum, se subdivide em disjuntiva, disjuncta, copulata e distributa. A disjuntiva é aquela em que o termo sujeito substitui algumas coisas que ele significa, enquanto um conjunto de sujeitos individuais determinados. Os sujeitos individuais são determinados de tal modo que a verdade enunciada sobre o conjunto parcial se aplica a todos os indivíduos nele contidos tomados separadamente. Por exemplo, na proposição “Algum homem é mentiroso”, o termo “Algum homem” substitui apenas uma parte do total dos indivíduos ao qual o termo “homem” se aplica e substitui esta parte enquanto um conjunto de sujeitos individualizados, de tal modo que a afirmação feita para o termo “Alguns homens” é também verdadeira para todos os indivíduos nele contidos, como, por exemplo, para o indivíduo “Alcibíades”, cuja proposição verdadeira seria assim formada: “Alcibíades é mentiroso”. A disjuncta é aquela em que o termo sujeito substitui algumas coisas que ele significa, enquanto um conjunto de sujeitos individuais indeterminados, tomados na confusão indistinta. Neste caso, a verdade enunciada sobre a coisa substituída pelo termo como um conjunto indistinto não se aplica aos sujeitos individuais determinados, mesmo inclusos no conjunto. Por exemplo, na proposição “Algum instrumento é necessário para tocar música”, o termo “Algum instrumento” substitui apenas uma parte do total dos indivíduos ao qual o termo “instrumento” se aplica e substitui esta parte enquanto um conjunto de sujeitos indeterminados, tomados na confusão indistinta, de tal modo que a afirmação feita para o termo “Alguns instrumentos” não é verdadeira para os indivíduos nele contidos, como, por exemplo, para o indivíduo “guitarra”, cuja proposição falsa seria assim formada: “Alguma guitarra é necessária para tocar música”. A copulata é aquela em que o termo substitui todas as coisas que ele significa, tomando-os coletivamente ou em bloco. Por exemplo, na proposição “Os apóstolos eram doze homens”, o termo “Os apóstolos” substitui o conjunto total dos indivíduos ao qual ele se aplica e substitui, enquanto coletividade, de tal modo que a afirmação feita para o termo “Os apóstolos” não é verdadeira para os indivíduos nele contidos, como, por exemplo, para o indivíduo “Pedro”, cuja proposição falsa seria assim formada: “Pedro era doze homens”.  A distributa, por fim, é aquela em que o termo substitui todas as coisas que ele significa e a cada uma delas em particular. Por exemplo, na proposição “Todo homem é mortal”, o termo “Todo homem” substitui o conjunto total dos indivíduos ao qual ele se aplica e substitui a cada um em particular de tal modo que a afirmação feita para o termo “Todo homem” é verdadeira para todos os indivíduos nele contidos, como, por exemplo, para o indivíduo “Sócrates”, cuja proposição verdadeira seria assim formada: “Sócrates é mortal.”.

A suppositio formalis, própria, real ou pessoal, comum, distributa, se subdivide em completa, incompleta e exceptiva. A completa é aquela em que o termo substitui todas as coisas que ele significa e a cada indivíduo em particular, conforme conceito e exemplo já exposto. A incompleta é aquela em que o termo substitui todas as espécies que ele significa, mas não todos os indivíduos contidos nas referidas espécies. Por exemplo, na proposição “Todo animal esteve na arca de Noé”, o termo “Todo animal” substitui o conjunto total das espécies as quais ele se aplica e substitui de tal modo que a afirmação feita para o termo “Todo animal” é verdadeira para as espécies nele contidas, como, por exemplo, para a espécie “Canina”, cuja proposição verdadeira seria assim formada: “O Caninos estiveram na arca de Noé”, mas não todos os indivíduos contidos nas referidas espécies, como, por exemplo, para o indivíduo “Snoopy”, cuja proposição falsa seria assim formada: “Snoopy esteve na arca de Noé”. A Exceptiva é aquela em que o termo substitui todos os indivíduos que ele significa, exceto um. Por exemplo, na proposição “Todo homem puramente homem nasceu com o pecado”, o termo “Todo homem puramente homem” substitui o conjunto total dos indivíduos aos quais ele se aplica e substitui de tal modo que a afirmação feita para o termo “Todo homem puramente homem” é verdadeira para os indivíduos nele contidos, como, por exemplo, para o indivíduo “Teresa”, cuja proposição verdadeira seria assim formada: “Teresa nasceu com o pecado”, mas exceto um indivíduo, como, por exemplo, para o indivíduo “Virgem Maria”, no contexto da doutrina católica, cuja proposição falsa seria assim formada: “A Virgem Maria nasceu com o pecado”.

Do exposto, sobre a suppositio formalis, própria, real ou pessoal, comum, afirma-se que as disjuntivas e distributas admitem descensus e ascensus, já as copulatas e disjuntas não admitem. Descensus ocorre quando, por inferência, as afirmações feitas sobre o termo superior é verdadeira quando também feita para os termos inferiores, enquanto o ascensus ocorre quando é verdadeira a passagem das afirmações na ordem inversa, dos termos inferiores para os superiores.

Do exposto, em todas as proposições afirmativas o predicado terá o valor de suplência da suppositio formalis, própria, real ou pessoal, comum, disjunta. Por exemplo, na proposição “Todo homem é animal”, ou na proposição “Toda execução musical exige um instrumento”, os predicados “animal” e “instrumento” substitui algumas coisas que eles significam (“algum animal” e “algum instrumento”), enquanto um conjunto de sujeitos individuais indeterminados, tomados na confusão indistinta. Assim, a verdade enunciada sobre a coisa substituída pelo termo-predicado como um conjunto indistinto não se aplica aos indivíduos determinados, mesmo inclusos no conjunto. Por exemplo, para o indivíduo “guitarra” ou para o indivíduo “Pedro”, cujas proposições falsas seriam assim formadas: “Todo homem é Pedro” ou “Toda execução musical exige uma guitarra”.

Do exposto, em contrário, em toda proposição negativa o predicado possui o valor de suplência da suppositio formalis, própria, real ou pessoal, comum, distributa. Ou seja, todos os indivíduos que o termo predicado substitui não se aplicam ao sujeito.  Por exemplo, na proposição “O homem não é um puro espírito”, em que todos os indivíduos contidos no termo-predicado “puro espírito” não são quaisquer dos indivíduos contidos no termo-sujeito “homem”. 

Do exposto, o valor de suplência do sujeito é determinado pelo predicado em toda proposição. Esta é a regra fundamental da suppositio.

Há outra possibilidade de divisão classificatória da suppositio personalis, considerando agora não mais o predicado, mas sim em relação ao verbo ou a cópula da proposição. É chamada de suppositio naturalis quando o termo sujeito substitui algo ao qual o predicado convém essencialmente, quando o predicado revela algo que participa da essência do termo sujeito. Por exemplo, na proposição “o homem é capaz de raciocinar”, em que a capacidade de raciocinar é uma nota essencial do termo “homem”, sem a qual o homem deixa de ser aquilo que é.  É chamada de suppositio accidentalis quando o termo sujeito substitui algo ao qual o predicado convém acidentalmente, quando o predicado convém ao sujeito apenas de modo secundário e derivado de uma característica essencial. Por exemplo, na proposição “O homem é mentiroso”, isto é, o predicado “mentiroso” se aplica ao termo “homem” de maneira acidental, derivada da primária característica, que é a capacidade de raciocinar.

Do exposto, segue-se que um sujeito indefinido supre universalmente (suppositio universalis) em matéria necessária e particularmente (suppositio disjunta) em matéria contingente. 

Do exposto, toda conseqüência é boa quando o gênero da suppositio não varia de uma proposição para outra.

Além da suppositio, Jacques Maritain menciona também as seguintes propriedades do termo: ampliatio, restrictio, alienatio, diminutio e appellatio. 

c.3.2)Ampliatio e restrictio.

A ampliatio e a restrictio são propriedades que descrevem funções contrárias. A primeira é a propriedade do termo que lhe permite passar de uma menor extensão para uma maior extensão, quando deslocado de uma proposição para outra. Neste caso, o termo posto na existência potencial possui maior extensão que a do mesmo termo posto na existência atual, que, por sua vez, possui maior extensão que a dos indivíduos parcialmente considerados e pertencentes à extensão do termo. O exemplo de ampliatio, cuja passagem é da existência atual para a potencial, ocorre nestas proposições: “todo homem (existindo atualmente) é falível” para “todo homem (com essência possível) é falível”. No termo “todo homem (com essência possível)” estão inclusos a essência humana e mais todos os indivíduos humanos, enquanto que no termo “todo homem (existindo atualmente)” estão inclusos todos os indivíduos humanos, mas está excluída de sua extensão a essência humana. Segue outro exemplo, agora com a passagem do termo da existência atual parcial para existência atual distribuída: da proposição “todo homem pobre é infeliz” para “todo homem é infeliz”. No termo “todo homem” estão incluso todos os indivíduos humanos, enquanto que no termo “todo homem pobre” está incluso apenas uma parte dos indivíduos humanos, os pobres. A segunda é a propriedade que o termo possui para passar de uma maior extensão para uma menor extensão, quando deslocado de uma proposição para outra. Neste caso, a regra é a seguinte: nas proposições afirmativas, é necessário que o termo mais amplo seja universal e que o sujeito exista. Um exemplo de restrictio ocorre nestas proposições: “todo homem é dotado de razão; logo, Napoleão I era dotado de razão”.

c.3.3)Alienatio, diminutio e appellatio 

A alienatio é uma propriedade que transfere o valor de uma suplência própria para uma suplência imprópria ou metafórica. Por exemplo, na proposição “Este filósofo é um asno”, em que o termo-sujeito “filósofo” possui suplência própria, mas foi referido pelo termo-predicado “asno” numa suplência imprópria. A diminutio, de outro modo, é a propriedade que leva um termo a substituir um sujeito menos extenso do que aquele que substituiria se fosse o referido termo considerado fora do contexto. Por exemplo, na proposição “todo argumento é bom na medida em que for verdadeiro”, em que o termo-sujeito “todo argumento” fora do contexto engloba muito mais indivíduos do que no contexto estabelecido pelo predicado “é bom na medida em que for verdadeiro”. Por fim, tem-se a propriedade da appellatio, que impõe ao termo-sujeito um significado dado por outro termo, tomado num sentido determinado que este por si não teria. Por exemplo, na proposição “Pedro é um grande comilão”, o termo “grande” é imposto ao sujeito “Pedro” somente em relação à faculdade de comer expressada pelo termo “comilão”. A appellatio, por isso, é diferente de um mero predicado, pois este é a determinação do sujeito, enquanto aquela reveste o sujeito de certa determinação e é investido nesta que ele recebe o predicado.  

d)Conclusão.

Finda a exposição do termo, tem-se que uma mesma palavra, com um mesmo significado, pode ocupar o lugar de coisas diferentes num dado discurso. Tem-se, também, que o valor da suplência de um termo depende da contextura da proposição a que pertence, sendo esta uma unidade, um todo, formado pelas partes, que são os termos.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Segundo Intervalo, ou A conversão de Chesterton

Prezados Amigos;

Vejam como ocorreu a conversão vivida por G. K. Chesterton, relatada no livro "Ortodoxia", publicado pela Editora Mundo Cristão. Ela nos revela que a inteligência para compreender o mundo deve procurar harmonizar as verdades parciais, obtidas nos vários momentos e setores da vida, uma vez que, dotadas ao mesmo tempo de natureza individual e de propriedades interdependentes, fazem parte, juntamente com o mistério, da Grande Verdade Complexa.

O autor, com a doutrina de um Deus pessoal (que criou o mundo separado de si) encontrou explicações para a sua conclusão intuitiva de que o mundo merece ser amado, mas não merece inteira confiança. Daí, todas as suas outras intuições, estas tidas na infância, foram explicadas por um determinado ponto da doutrina. Sua intuição de que as formas da natureza são causadas por escolhas misteriosas foi explicada pela vontade de Deus. Sua intuição de que a felicidade é condicionada e o bem é uma relíquia foi explicada pela doutrina da Queda. Sua intuição de que o universo é pequeno e aconchegante foi explicada pela natureza infinita de Deus. E, segundo o autor, compreendeu o mais importante, quando tais encaixes modificaram o seu entendimento sobre a causa para o otimismo humano: ao invés do homem ser otimista porque se encontra em completa harmonia com a natureza, o homem deve ser otimista pelo fato de não se adequar completamente ao mundo.

Enfim, o exemplo de Chesterton nos mostra que um intelectual, antes de tudo, deve ser um homem sério e honesto, que utiliza a história, as experiências e os pensamentos para verificar a consistência das doutrinas.  Segue o trecho do livro:

"E depois aconteceu uma experiência que é impossível descrever. Foi como se eu houvesse estado tateando às cegas desde o berço com duas máquinas enormes e pouco manejáveis, de formato distinto e sem conexão aparente – o mundo e a tradição cristã. Eu descobria esta falha no mundo: o fato de alguém ter de algum modo de amar o mundo sem confiar nele; de alguma forma, devíamos amar o mundo sem sermos mundanos. Descobrir essa saliente característica da teologia cristã, como uma espécie de ponta rígida, a insistência dogmática de que Deus era pessoal e criara um mundo separado de si mesmo.

A ponta do dogma encaixa-se exatamente na falha do mundo – evidentemente fora concebida para ocupar esse espaço – e então uma coisa estranha começou a acontecer. Assim que essas duas partes das duas máquinas se ajustaram, uma depois da outra, todas as demais se encaixaram, combinando com misteriosa exatidão. Eu podia ouvir peça por peça em toda a maquinaria ocupando seu lugar com uma espécie de clique de alívio. Depois de ajustada uma parte, todas as outras repetiam o ajuste, como toque após toque o relógio bate o meio-dia. Instinto após instinto era respondido por doutrina após doutrina. Ou, para variar a metáfora, eu era como alguém que houvesse avançado num país inimigo para tomar uma alta fortaleza. E quando o forte caíra, todo o país se rendera, posicionando-se em bloco atrás de mim.

A paisagem toda estava iluminada, por assim dizer, remontando aos campos de minha infância. Todas aquelas fantasias cegas da meninice que no quarto capítulo em vão tentei identificar nas trevas, de repente, tornaram-se transparentes e sadias. Eu estava certo quando senti que as rosas eram vermelhas por alguma espécie de escolha: era a escolha divina. Eu estava certo quanto senti que eu quase preferia dizer que a relva tinha a cor errada a dizer que aquela sua cor devia ser necessária: ela poderia de fato ser de qualquer outra cor.

Minha percepção de que a felicidade pendia do fio incerto de uma condição, no fim das contas, significava alguma coisa: significava a doutrina da Queda. Mesmo aqueles sombrios e informes monstros de noções que não fui capaz de descrever, muito menos de sustentar, ocuparam suavemente seus espaços como colossais cariátides do credo. A fantasia de que o cosmo não era vasto e vazio, mas pequeno e aconchegante, tinha agora um significado realizado, pois toda obra de arte deve ser pequena aos olhos do artista: para Deus as estrelas talvez fossem apenas minúsculas e caras, como diamantes. E o meu persistente instinto de que, de algum modo, o bem não era simplesmente um instrumento a ser usado, mas uma relíquia a ser preservada, como os bens do navio de Crusué – até isso fora o tímido sussurro de algo originalmente sábio, pois segundo o cristianismo, éramos de fato os sobreviventes de um naufrágio, a tripulação de um navio dourado que fora a pique antes do começo do mundo.

Mas o ponto importante era o seguinte: que tudo isso invertera totalmente a razão do otimismo. E no instante em que a inversão aconteceu, senti um súbito alívio como quando um osso é recolocado em sua articulação. Muitas vezes chamara-me de otimista, para evitar a blasfêmia por demais evidente do pessimismo. Mas todo o otimismo da época tinha sido falso e desanimador por esta razão: ele sempre tentara provar que estamos em harmonia com o mundo.

O otimismo cristão baseia-se no fato de NÃO nos encaixarmos no mundo. Eu tentara ser feliz dizendo a mim mesmo que o homem é um animal como outro qualquer que procurava seu alimento provindo de Deus. Mas agora eu estava realmente feliz, pois aprendera que o homem é uma monstruosidade. Eu estivera certo ao sentir que todas as coisas eram estranhas, pois eu mesmo era simultaneamente pior e melhor que todas elas.

O prazer do otimista era prosaico, pois baseava-se na naturalidade de tudo; o prazer cristão era poético, pois residia na antinaturalidade de tudo a luz do sobrenatural. O filósofo moderno me dissera muitas e muitas vezes que eu estava no lugar certo, e eu ainda me sentia deprimido mesmo aceitando isso. Mas eu ouvira que estava no lugar ERRADO, e minha alma exultou de alegria, cantando como um pássaro na primavera. O conhecimento revelou e iluminou aposentos esquecidos da casa escura da infácia. Agora eu sabia por que a relva sempre me parecera estranha como a barba verde de um gigante, e por que eu podia sentir saudades de casa estando em casa.”

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Intervalo no estudo do Termo, segundo Jacques Maritain

Prezados amigos;

Segue um grande poema de Santa Teresa de Jesus, traduzido por Milton Amado, o qual estabelece novas consequências a partir da relação entre vida, ferimento mortal e morte, em razão dos princípios da conversão ao Nosso Senhor Jesus Cristo e da ressurreição da carne:

"No mais íntimo foi meu ser ferido
e maravilhas tais o golpe trouxe
que dúvidas não tenho de que fosse
ele por mão divina desferido.

E embora fosse grave o ferimento,
pois mortalmente o dardo me atingira
com dor que igual ninguém jamais sentira,
é dessa chaga que retiro alento.

Mortal - e como pode então dar vida?
Dá vida - e como pode então destruir?
Como pode curar após ferir
e a Deus fazer-me com mais força unida?

Divina habilidae é de supor
a essa Mão por que a lança é dirigida
que o inimigo atravessa e dá-lhe vida,
curvando-o ao que deseja o Vencedor."

Agora, compare e perceba a harmonia existente entre o poema e a escultura de Gian Lorenzo Bernini:

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Termo, segundo Jacques Maritain

3. O Conceito

O conceito é o objeto formal da operação da simples apreensão. É a obra produzida pelo espírito dentro de si mesmo, é, portanto, sempre imaterial, abstrato.

No caminho percorrido pelo espírito para produção do conceito objetivo -  da coisa existente no mundo material até a sua essência existente no mundo imaterial - ele passa por uma etapa distinta  e antecedente, que é também chamada de conceito. Daí porque se diz que há dois tipos de conceitos. 

O primeiro tipo, o da primeira etapa, é o conceito mental ou verbo mental, adquirido quando o espírito capta a “imagem” ou a similitude espiritual da coisa, produzida no seu próprio âmbito, com o objetivo de servir de meio pelo qual intelige a coisa. O conceito mental corresponde a uma necessidade do conhecimento intelectual, pois ele leva o objeto inteligível ao último grau de imaterialidade necessário para ser percebido, e corresponde à fecundidade própria da inteligência, pois com ele a inteligência procura manifestar para si mesma aquilo que acabou de apreender.

Esse conceito mental é portador de um objeto: a essência da coisa apresentada sob um aspecto inteligível. Eis aí o segundo tipo de conceito – o conceito objetivo, a essência – que é o quê concebemos da coisa, tornada presente ao nosso espírito. Ele é a própria coisa enquanto cai sob o conhecimento intelectual. 

O conceito objetivo é o que conhecemos; o conceito mental é pelo que conhecemos. Este é algo que pertence ao observador e é utilizado por ele para conhecer o objeto, assim como é a mão, que o observador utiliza para pegar um animal; aquele é algo que pertence ao objeto e é utilizado pelo observador para conhecer o objeto, assim como as patas ou as orelhas, pelas quais o observador agarra o animal.

O conceito objetivo, que é o mesmo objeto formal da simples apreensão (a essência), é o tipo que interessa imediatamente à lógica, quando da realização das “composições”, “divisões” e verificações de conveniência.

Dentro da lógica, o conceito objetivo, por ser abstração feita de uma existência atual, é sempre encarado como uma existência possível. Todo conceito, por exemplo “cegueira”, “número”, “ponto”, “um mundo melhor” ou “homem”, é sempre uma abstração daquilo que existe de fato, e, por isso, pela lógica, é algo existente na esfera do possível.

Interessa à lógica a análise do conceito objetivo, sob o ângulo da sua compreensão e da sua extensão.

A compreensão do conceito objetivo é a totalidade das suas notas constitutivas. São notas de um conceito os elementos que pertencem a ele necessariamente. Por exemplo, do conceito homem se pode perceber as seguintes notas: substância, corpo vivo, dotado de sensibilidade, racional. Tais notas são essenciais ao conceito, pois, se privado de qualquer uma delas, deixa de ser o quê é.

Já a extensão do conceito objetivo é a totalidade de indivíduos e espécies objetos de conceitos universais menores, sobre os quais ele se aplica (convém).

A regra geral referente à compreensão e à extensão do conceito objetivo é fixada da seguinte maneira: a extensão e a compreensão de um conceito estão entre si numa razão inversa. Quanto maior a extensão, menor a compreensão; e quanto maior a compreensão, menor a extensão. Por exemplo, o conceito animal possui uma extensão maior que o conceito homem, pois abarca na sua amplitude uma quantidade maior de indivíduos: todos os indivíduos abarcados pelo conceito homem e, além destes, todos os indivíduos abarcados por outros conceitos universais menores como cachorro e gato; entretanto o conceito animal possui uma compreensão menor que a do conceito homem, pois possue menor quantidade de notas conceituais, por exemplo a nota “racional” que pertence ao conceito homem não se aplica ao conceito animal, entretanto, todas as notas pertencente ao conceito animal se aplica ao conceito homem.

Entende Jacques Maritain que, como um conceito apresenta imediatamente ao espírito uma essência representativa de alguma coisa real, sua característica primordial é a compreensão, sendo a extensão apenas uma propriedade decorrente e pressuposta da compreensão. Assim, a compreensão deve ser entendida num sentido objetivo, pois as notas conceituais constituem a essência do conceito em si mesmo e estão nele contidas radicalmente, não é fruto de uma imposição arbitrária feita pelo observador. Independentmente da variação das nomenclaturas utilizadas, como ocorre por exemplo no uso das várias linguas existentes, as notas conceituais são as mesmas.

Daí porque um conceito objetivo é primeiramente compreendido pela sua definição essencial, e secundariamente pelas notas não-essenciais (acidentais) que decorrem necessariamente das notas essenciais, e a isto se chama definição descritiva.

No que se refere à extensão, comparativamente, chama-se conceito superior o conceito de maior extensão e conceito inferior aquele de menor extensão, por exemplo, animal é um conceito superior em relação a homem, que é um conceito inferior. O conceito superior está para o inferior assim como o todo está para a parte. Os lógicos denominam o conceito superior de todo potencial ou todo lógico, pois nele contém os conceitos inferiores, e denominam os conceitos inferiores de partes subjetivas, pois estes conceitos inferiores são sujeitos dos quais o conceito superior é predicado.

No âmbito da lógica menor, os vários tipos de conceito são divididos segundo tais perpectivas: a) em relação ao ato da simples apreensão; b) segundo a sua compreensão e; c) segundo a sua extensão.

a) Em relação ao ato da simples apreensão, os conceitos podem ser complexos ou incomplexos, uma vez que o conceito objetivo é o objeto formal da simples apreensão. As explicações desta parte são idênticas àquelas referentes ao objeto formal mencionada no tópico da simples apreensão.

Ainda quanto ao ato da simples apreensão, os conceitos podem ser conceptus ulyimatus (conceito da coisa), que se refere à própria coisa, e conceptus non ultimatus (conceito do sinal), que se refere à palavra escrita ou falada.

b) Segundo a sua compreensão, os conceitos se dividem em concretos e abstratos. Os conceitos concretos são aqueles que apresentam ao espírito a forma de um sujeito que ela (forma) determina. Apresenta ao espírito o quê é isto ou aquilo. Por exemplo, o conceito homem, cuja forma determina um sujeito. Os conceitos abstratos, ao contrário, apresentam ao espírito uma forma, mas sem o sujeito que ela determina. Apresenta ao espírito pelo que uma coisa é isto ou aquilo. Por exemplo, humanidade. Ambos os tipos são abstratos, porque abstraídos da experiência sensível, mas os segundos são abstratos na segunda potência, porque separam uma forma do sujeito que ela determina.

c) Segundo a sua extensão, os conceitos se dividem em coletivos e divisivos. Coletivos são aqueles que se realizam num grupo de indivíduos tomados coletivamente, por exemplo, o conceito exército e família; divisivos são aqueles que se realizam nos próprios indivíduos tomados cada um em particular, por exemplo, homem e soldado.

e) Ainda segundo a extensão, é possível dividir o conceito, mas enquanto ocupante da função de sujeito numa proposição, por isso agora considerado de modo dinâmico. O termo extensão, neste contexto, significa a abrangência dos indivíduos aos quais o conceito é considerado como comunicável em sua função de sujeito. A referida abrangência poderá abarcar toda a universalidade do conceito, abstraindo deste qualquer consideração dos indivíduos; poderá abarcar parte indeterminada desta universalidade, aí já considerando uma parte dos indivíduos indeterminadamente; ou poderá abarcar parte determinada ou individual da universalidade, aí também incluindo a modalidade individual no seu aspecto determinado. Nesta condição, o conceito-sujeito será singular ou individual, quando se realizar num único indivíduo ou numa parte determinada da universalidade abrangida pelo conceito, por exemplo, “este homem”, ou ainda “Aristóteles”, ou ainda “estes dois homens”; será comum particular, quando se realizar numa parte indeterminada dos indivíduos componentes da universalidade abrangida pelo conceito, por exemplo, “alguns homens”, o ainda “alguns filósofos”; e será comum distributivo ou universal, quando se realizar em todos os indivíduos da universalidade abrangida pelo conceito, por exemplo, “todo homem”, ou ainda “todo filósofo”, ou quando se realizar na própria essência do conceito apreendida na simples apreensão, não voltada aos indivíduos no real, por exemplo, nesta frase, “homem é atribuível a vários sujeitos”, ou nesta frase, “o homem é a mais nobres das criaturas”.

As palavras “este”, “algum” e “todo” são utilizadas para marcar em que extensão o conceito-sujeito recebe o predicado: se recebe em toda a sua universalidade, se na parte indeterminada da sua universalidade, ou se na parte individual ou determinada da sua universalidade. A noção de universalidade aqui é sempre com relação aos indivíduos abrangidos, exceto quando apontada para a própria essência do conceito apreendida na simples apreensão, não voltada aos indivíduos no real.

As qualidades singular, particular e distributivo, atribuídas aos conceitos-sujeito, se estendem as proposições na medida em que participam delas embutidas em um destes sujeitos, daí porque as proposições também são chamadas de singulares, particulares e distributivas.

sábado, 19 de junho de 2010

Termo, segundo Jacques Maritain

2. A simples apreensão

A simples apreensão é a primeira atividade praticada pelo espírito quando se debruça sobre um objeto qualquer. Segundo Jacques Maritain, é o ato pelo qual a inteligência [apenas] percebe alguma coisa, sem nada afirmar ou negar sobre ela.

O objeto deste primeiro ato do espírito se divide em material e formal.

O objeto material é uma coisa qualquer, sobre a qual o espírito se debruça; por exemplo, este homem ou esta pedra de fato existente.

Entretanto, esse objeto material é apenas o ponto de partida para a operação da simples apreensão, porque seu ponto de chegada, o seu objetivo principal é, a partir do objeto material, captar o objeto formal.

O objeto formal, por sua vez, não é a coisa externa, mas é aquilo que o espírito apreende da coisa. Isto que o espírito apreende da coisa é chamada por Jacques Maritain de essência, natureza ou quididade.

Portanto, a simples apreensão é o ato pelo qual o espírito, na media em que se debruça sobre uma coisa, capta da coisa aquilo que é inteligível.  O autor, inclusive, esclarece deste modo: as essências atingidas pela simples apreensão não nos fornece de logo o conhecimento da constituição íntima das coisas, mas apenas os aspectos inteligíveis mais simples.

Esta é a primeira operação do espírito, é o primeiro passo dado pelo espírito antes de poder afirmar ou negar algo sobre a coisa.

A simples apreensão do objeto acontece de modo diferente, neste ou naquele ato particular do espírito. Isto acontece porque o objeto, enquanto submetido ao ato particular, possui um particular aspecto inteligível. Quanto à particularidade em que são concebidos no ato, os objetos se dividem em incomplexos e complexos.

O objeto incomplexo é aquele que se apresenta explicitamente sob um único aspecto inteligível, daí porque demanda uma única apreensão inteligível e é expresso por um único termo. Por exemplo, “homem”.

O objeto complexo, entretanto, é aquele que se apresenta explicitamente sob dois ou mais aspectos inteligíveis, daí porque demanda duas ou mais apreensões inteligíveis e, por isso, é expresso por dois ou mais termos. Por exemplo, “animal racional”.

Portanto, a mesma essência humana, enquanto objeto da simples apreensão, poderá ser apreendida pelo espírito de um modo incomplexo, num único ato, representado, por exemplo, pelo termo “homem”; ou poderá ser apreendida de um modo complexo, em dois ou mais atos, representados, por exemplo, pelo termo “animal racional”.

Entretanto, independentemente do ato particular do espírito, os objetos também podem ser classificados, considerando-os em si mesmos. Se o objeto da simples apreensão for uma única essência ele é chamado de incomplexo. Por exemplo: “homem” ou “animal racional”; independentemente de serem formados por uma ou duas apreensões inteligíveis, de possuírem um ou dois termos, é apenas uma só essência. O objeto incomplexo é, portanto, indivisível em si mesmo. Se o objeto da simples apreensão for várias essências unidas ele é chamado de complexo. Por exemplo: “um homem vestido com roupa suntuosa” ou “a garça de bico longo ajustado num longo pescoço”; neste caso, é divisível por si mesmo, porque cada essência distinta é apreendida num conjunto para a formação da essência complexa.

As divisões do objeto da simples apreensão, considerando-os em si mesmo, ou considerando-os no particular aspecto em que foram apreendidos, permite a seguinte análise combinatória: o objeto poderá ser incomplexo em si mesmo e incomplexo quando ao modo de apreensão (por exemplo: homem); o objeto poderá ser incomplexo em si mesmo e complexo quando ao modo de apreensão (por exemplo: animal racional); o objeto poderá ser complexo em si mesmo e incomplexo quando ao modo de apreensão (por exemplo: filósofo); o objeto poderá ser complexo em si mesmo e complexo quando ao modo de apreensão (por exemplo: a garça de bico longo ajustado num longo pescoço).

Conclui-se, do exposto, que a simples apreensão é a primeira operação do espírito; é o ato pelo qual a inteligência capta da coisa aquilo que é inteligível; essa captação pode se dá por apenas uma apreensão inteligível ou mais de uma, a depender do particular aspecto inteligível em que o objeto foi apreendido; e em razão da complexidade do objeto captado, pode se expressar por uma essência ou seqüência de essências unidas, as quais são captadas sem que delas nada se afirme ou negue.