segunda-feira, 1 de julho de 2013

Lógica para Principiantes - 1ª Parte

(Livro de Pedro Abelardo, que comenta o Isagoge, de Porfírio)

1.       Introdução ao Isagoge

 

a)      Lógica.

 

Pertence ao gênero da filosofia. Boécio disse que a filosofia é a ciência que se detém nas coisas mais elevadas. Divide a filosofia em três espécies: especulativa, que se ocupa da natureza das coisas; moral, que se ocupa da dignidade da vida a ser considerada; e racional ou lógica, que se ocupa da ordem dos argumentos a serem compostos.

 

Boécio disse que a lógica pode ser tanto parte da filosofia quanto instrumento para uso das outras partes e, inclusive, instrumento para si mesma.

 

b)      Razão para a Lógica

 

Ainda segundo Boécio, consiste em reduzir e redigir as regras certas de argumentação, para que não leve ao erro de assegurar o que não se encontra na natureza das coisas, ou reuni contrários quanto as suas condições.

 

c)       Ordem ao redigir a Lógica

 

Primeiro, deve-se escrever sobre os termos simples; depois, sobre as proposições, e, por fim, sobre as argumentações, porque as argumentações resultam das proposições e estas das palavras.

 

d)      Em que consiste o Isagoge

 

Numa introdução ao livro “Categorias” de Aristóteles, que é necessário ao conhecimento de toda arte.

 

e)      Intenção do Isagoge

 

Principalmente, instruir o leitor nas Categorias de Aristóteles.

 

f)       A matéria do livro Isagoge

 

Tratar dos cinco nomes, que são o gênero, a espécie, a diferença, o próprio e o acidente, porque estes são discutidos em quase toda a série das Categorias. Estes cinco nomes são tratados pelo Isagoge sob dois aspectos: esclarecendo a significação de cada um dos nomes, para serem entendidos quando mencionados nas Categorias; e se referindo as infinitas (indeterminadas) coisas significadas pelos cinco nomes como se tratassem de cinco, pois estes cinco são propriedades das infinitas coisas.

 

g)      Modo do Isagoge tratar os cinco nomes

 

Primeiro, distingue a natureza de cada um deles; segundo, para maior conhecimento, passa ao que lhes é comum e, terceiro, às suas propriedades.

 

h)      A Necessidade dos cinco nomes

 

Principalmente, para entender as Categorias, mas também para dividir, definir e demonstrar. A ciência das Categorias está no livro de Aristóteles; definir é atribuir ou compor definições; e dividir e demonstrar são argumentações.

 

i)        De que modo os cinco nomes são necessários

 

Algo pode ser necessário em três sentidos: primeiro, como inevitável, algo que é necessário para a constituição da essência da coisa; segundo, como utilidade, algo que é necessário previamente para se chegar a outro ulterior; e terceiro, como determinado, algo que ocorrerá com certeza. A necessidade dos cinco nomes é no sentido de utilidade.

 

j)        A que parte da Lógica a ciência dos cinco nomes se refere

 

De acordo com Cícero e Boécio, a lógica se compõe de duas partes: a ciência de descobrir os argumentos e a ciência de julgá-los. Julgar significa comprovar os argumentos descobertos, logo, como disse Cícero, a descoberta é naturalmente anterior ao julgamento.

 

A ciência dos cinco nomes se refere às duas partes da lógica, mas principalmente à descoberta. É certa parte da descoberta, pois dos cinco nomes se tira argumentos. Diz respeito também ao julgamento, pois a comprovação do argumento tirado dois cinco nome se faz com a constatação da sua correspondência com a natureza dos cinco nomes.

 

k)      Divisão da Dialética segundo Boécio

 

Divide-se em, primeiro, ciência da descoberta e do juízo e, segundo, ciência da divisão, da definição e da dedução. Mas estas partes estão inter-relacionadas: a descoberta é um dos membros da primeira divisão; na descoberta se inclui a ciência da divisão ou da definição, porque os argumentos são tirados destas duas.

 

As categorias, por onde se entra na Lógica, não se separa desta, pois fornece os recursos máximos para os argumentos, porque, por meio destas, é possível confirmar de que natureza cada coisa é ou não.

domingo, 26 de maio de 2013

Resumo do Isagoge de Porfírio - 3ª Parte


1.       Dos caracteres comuns e diferentes entre as cinco vozes
 
a)      Comum entre todas – serem atribuídos a uma pluralidade de sujeitos
 
b)    Comum entre gênero e diferença – contêm as espécies; tudo que lhes for atribuído será também às espécies subordinadas; se destruídos, desaparecem também os seus subordinados.
 
c)     Diferença entre gênero e diferença – o gênero é atribuído a um maior número de coisas que a diferença; o gênero contém a diferença em potência; os gêneros são anteriores à diferença e seu desaparecimento acarreta o desta; o gênero é atributo que entra na essência da coisa e a diferença na qualidade; o gênero é um para cada espécie e a diferença é múltipla; o gênero desempenha o papel de matéria e a diferença de forma.
 
d)    Comum entre gênero e espécie – são anteriores às coisas as quais são atribuídos; cada um deles forma um todo.
 
e)    Diferença entre gênero e espécie – os gêneros contêm as espécies; os gêneros anteriores, informados pelas diferenças específicas, formam as espécies; os gêneros são anteriores por natureza às espécies e o desaparecimento daqueles acarretam o destas; os gêneros são atribuídos por sinonímia às espécies e o contrário não sucede; os gêneros possuem uma maior extensão que as espécies e estas uma compreensão maior que aqueles; nem a espécie poderia se tornar gênero supremo nem este espécie especialíssima.
 
f)     Comum entre gênero e próprio – são logicamente posteriores as espécies; o gênero é atribuído igualmente às espécies por sinonímia e os próprios são atribuídos igualmente aos indivíduos que dele participam também por sinonímia.
 
g)    Diferença entre gênero e próprio – o gênero é anterior e o próprio posterior; o gênero é atribuído a várias espécies e o próprio apenas a uma espécie a ele pertinente; o gênero não se recíproca com as espécies e o próprio sim, com a espécie a ele pertinente; a destruição do gênero acarreta a do próprio, mas o inverso não é verdadeiro.
 
h)    Comum entre gênero e acidente – apenas o que há de comum entre todos, serem atribuídos a uma pluralidade de sujeitos.
 
i)      Diferença entre gênero e acidente – o gênero é anterior ao acidente e a destruição daquele acarreta o deste, mas o contrário não é verdadeiro; todos os que participam do gênero, participam igualmente, mas os que participam do acidente estão sujeitos ao mais e ao menos; os acidentes subsistem primordialmente nos indivíduos e os gêneros são anteriores; os gêneros são atribuídos essencialmente e os acidentes como qualidade ou maneira de ser.
 
j)      Comum entre a diferença e a espécie – são igualmente participáveis pelos indivíduos subordinados.
 
k)    Diferença entre diferença e a espécie – diferença é um atributo na qualidade e espécie na essência; a diferença as vezes se aplica a várias espécies e a espécie apenas aos indivíduos subordinados; a diferença é anterior a espécie, pois sem o racional não há homem, mas sem o homem há o racional; uma diferença junta a outra forma uma espécie, mas as espécies não se juntam para formar algo.
 
l)      Comum entre a diferença e o próprio – estão sempre na totalidade do sujeito e são participados igualmente pelos seus subordinados.
 
m) Diferença entre diferença e o próprio – a diferença muitas vezes se aplica a uma pluralidade de espécies, mas o próprio apenas a uma; a diferença é logicamente posterior aos termos dos quais é diferença, porém não lhe é recíproca, e o próprio subsiste aos termos dois quais é próprio e se reciprocam.
 
n)   Comum entre a diferença e o acidente – a diferença e o acidente inseparável estão no sujeito e em todo o sujeito.
 
o)   Diferença entre diferença e o acidente – a diferença contém e não é contida, mas o acidente contém e são contidos, pois o sujeito é receptáculo de vários acidentes; a diferença não admite mais e menos e o acidente sim; as diferenças contrárias não são combináves, os acidentes sim.
 
p)   Comum entre a espécie e o próprio – são atribuídos reciprocamente um ao outro; pertencem a título igual aos seres que deles participam.
 
q)   Diferença entre a espécie e o próprio – a espécie pode ser gênero de outros e o próprio não; a espécie está realizada antes do próprio; a espécie está sempre em ato nos seus sujeitos, mas o próprio  está as vezes em potência.
 
r)    Comum entre a espécie e o acidente – o caráter comum geral.
 
s)   Diferença entre a espécie e o acidente – a espécie é atribuída essencialmente e o acidente na qualidade e na maneira de ser; as substâncias participam apenas de uma espécie, mas de vários acidentes; as espécies são concebidas antes dos acidentes; a espécie não admite mais e menos e o acidente sim.
 
t)   Comum entre o próprio e o acidente inseparável – sem eles os sujeitos aos quais são considerados não podem subsistir e estão sempre em todo o sujeito e sempre.
 
u)  Diferença entre o próprio e o acidente inseparável – o próprio está presente apenas numa espécie e aos acidentes em várias; o próprio substitui na atribuição o do qual ele é próprio e o acidente não; o próprio não admite o mais e o menos e o acidente sim.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Resumo do Isagoge de Porfírio - 2ª Parte


1.       Do gênero

a)      1º sentido – gênero é o ponto de partida para a geração de uma coleção de coisas relacionadas em vista deste ponto. Ex: os heráclidas provêm de Hércules.

b)      2º sentido - gênero é o princípio sob o qual estão ordenadas as espécies.

c)       3º sentido – é o atributo essencial aplicável a uma pluralidade de coisas que diferem entre si especificamente. Ex: animal. Este é o sentido de que tratam os filósofos.

d)      O gênero, a diferença, a espécie, o próprio e o acidente são aplicáveis a diversos seres que possuem entre si caracteres comuns.

e)      O gênero se difere dos atributos de um único indivíduo porque se aplicam a vários. Diferencia-se das espécies porque estas se aplicam a indivíduos apenas distintos numericamente e não especificamente.

f)        O gênero é diferente do próprio, pois este se aplica a uma única espécie e aos indivíduos que a integra; o gênero se aplica a várias espécies.

g)      O gênero se distingue da diferença e do acidente, pois embora estes se apliquem a várias espécies, não se aplicam de modo essencial, mas qualitativamente.

2.       Da espécie

a)      1º sentido – espécie é a forma de cada coisa.

b)      2º sentido – espécie é o que é subordinado imediatamente ao gênero e ao que o gênero é atribuído essencialmente, como homem é uma espécie do gênero animal.

c)       3ª sentido – espécie especialíssima é aquela que se aplica essencialmente a uma pluralidade de seres que se diferem entre si apenas numericamente.

d)      Em cada categoria há o gênero supremo, termo acima do qual não se encontra outro; há espécies intermediárias, acima das quais se encontram outras mais elevadas ou o gênero supremo e abaixo das quais se encontram outras subordinadas ou a espécie especialíssima; e há a espécie especialíssima, abaixo das quais se encontram apenas os indivíduos numericamente considerados.

e)      A doutrina de Aristóteles ensina que o ser não é o gênero supremo de todos os gêneros e espécies, pois as dez gêneros das Categorias é que são supremos e chamá-las todas de ser se diz por homonímia e não por sinonímia.

f)       As espécies especialíssimas são em número finito e os indivíduos em número infinito (no sentido de desconhecido).

g)      Para Platão a ciência vai dos gêneros supremos às espécies especialíssimas, e vice versa, mas não até os indivíduos.

h)      Pelo comum, o múltiplo se torna um e pelo particular o um se torna múltiplo.

i)        Os gêneros superiores podem sempre ser atribuídos aos inferiores, às espécies especialíssimas e aos indivíduos. Isso define a extensão dos termos. O indivíduo só pode ser atribuído a um ser particular, como a Sócrates ou a esta coisa que está aqui na mesa.  

j)        O indivíduo é aquele portador de particularidades exclusivas.

3.       Da diferença

a)      Diferença Comum – quando uma coisa difere de outra, por uma alteridade qualquer, ou quando uma coisa difere de si mesma. Ex: Sócrates difere de Platão e Sócrates criança difere de Sócrates adulto.

b)      Diferença própria – quando uma coisa difere da outra em razão de um acidente inseparável dela, como a cor dos olhos ou uma cicatriz.

c)       Diferença propriíssima – uma coisa difere de outra em razão de uma diferença específica.

d)      As diferenças comuns e próprias tornam o ser de uma qualidade outra, e a diferença propriíssima torna o ser outro.

e)        A divisão do gênero em espécies decorre das diferenças específicas e esta, junto ao gênero, define a espécie.

f)       As diferenças podem ser inseparáveis e separáveis. Dentre as inseparáveis, umas são essencialmente e outras por acidente. As inseparáveis essenciais são as específicas.

g)      As diferenças inseparáveis essenciais não admitem o mais e o menos, as acidentais sim.

h)      As diferenças inseparáveis essenciais se dividem entre aquelas que constituem a substância do gênero e aquelas que dividem o gênero em espécies.

i)        1ª Definição de diferença específica – é o que faz com que a espécie ultrapasse o gênero em compreensão.

j)        Os gêneros possuem as diferenças específicas apenas em potência.

k)      2ª Definição de diferença específica – é o que é atribuído na categoria da qualidade a uma pluralidade de coisas que, por isso, se diferem especificamente.

l)        3ª Definição de diferença específica – é o que separa naturalmente as coisas subordinados ao mesmo gênero.

m)    A diferença não só separa as coisas dentro do mesmo gênero, mas também contribui para a própria essência das coisas separadas.

4.       Do próprio

a)      1º Sentido – próprio é o que pertence acidentalmente a uma espécie, mesmo sem pertencer a toda a espécie. Ex.: é próprio do homem exercer a medicina.

b)      2º Sentido – próprio é o que pertence a espécie, a toda espécie, mas não a ela apenas. Ex.: é próprio do homem ser bípede.

c)       3º Sentido - próprio é o que pertence a uma só espécie, e a toda ela, mas num momento determinado. Ex.: é próprio do homem encanecer na velhice.

d)      4º Sentido – é o que pertence a uma só espécie, a toda ela, sempre, mesmo que em potencial. Ex.: é próprio do homem a faculdade de ri. É uma qualidade que faz sempre parte da natureza da espécie.
5.       Do acidente.
a)      1º Sentido – acidente é o que se produz e desaparece sem acarretar a destruição do sujeito.

b)      Divide-se em inseparável ou separável do sujeito. Ex.: dormir é separável do sujeito, ser negro, não.

c)       2º Sentido – acidente é o que pode pertencer ou não pertencer ao sujeito.

d)      3º Sentido – acidente é o que não é gênero, espécie, diferença ou próprio, mas é sempre subsistente num sujeito.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Resumo do Isagoge de Porfírio - 1ª Parte


Este é um resumo do livro Isagoge de Porfírio, o Fenício, discípulo de Plotino de Licópolis, publicado pela Editora Matese, com tradução, notas e comentários de Mário Ferreira dos Santos. Será apresentado em três partes. A primeira parte, o prefácio, agora postado; a segunda parte, as cinco vozes e a terceira parte, os caracteres comuns e diferentes às cinco vozes.

1.       Prefácio

a)      O livro expõe os conhecimentos necessários para aprender as Categorias de Aristóteles, para dar definições e para tudo que é concernente a divisão e a demonstração.
 
b)      Os conhecimentos são do gênero, da diferença, da espécie, do próprio e do acidente.

c)       O livro é um breve resumo do que disseram sobre isso os antigos filósofos, especialmente os peripatéticos, apenas no que se refere aos aspectos lógicos.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Uma Nova História de Mouchete

Diariamente encontro uma multidão de miseráveis pelo caminho e sempre percebi que, além das privações materiais ou morais, compartilham entre si outra espécie de privação, que nunca soube definir.

Não afirmo, com isso, que haja qualquer relação de causalidade entre elas, nem que seja impossível sair de tal condição.

Aquela para mim obscura foi muito bem esclarecida por Georges Bernanos em "Uma Nova História de Mouchete" publicada pela Editora É Realizações:

"O pensamento de Mouchette nunca se apresenta, evidentemente, com uma bela organização lógica. Permanece vago, passa facilmente de um plano a outro. Se os miseráveis tivessem o poder de associar entre si as imagens de suas infelicidades, elas os esmagariam. Mas a miséria deles é uma infinidade de misérias, um desenrolar de acasos infelizes. Eles se parecem com cegos cujos dedos trêmulos contam moedas de valor desconhecido. Para os miseráveis, a idéia de miséria basta. A miséria deles não tem rosto."

Resumo dos Comentários de Mário Ferreira dos Santos aos Antepredicamentos

 
1.       Sobre o Livro “Das Categorias”

 
a)      Categorias ou predicamentos são os gêneros supremos. O livro é divido em três partes: a 1ª – os antepredicamentos (cap. 1 a 4) – que são os pré-requisitos para a razão dos predicamentos e sua coordenação nos seus respectivos gêneros; a 2ª – os predicamentos (cap. 5 a 9) – que são os gêneros supremos nos quais se resume todos os entes criados; e a 3 – os pós-predicamentos – que são as propriedades de todos os predicamentos ou de muitos deles.

 
2.       Análise Geral dos Antepredicamentos.

 
a)      Os predicamentos se dividem em unívocos, equívocos, análogos e denominativos.
b)      Unívocos são aqueles que se predicam pelo nome e pela sua definição essencial.
c)       Equívocos são aqueles que se predicam apenas pelo nome, mas não pela sua definição essencial.
d)      Análogos são aqueles que se predicam em parte pelo nome e em parte pela definição essencial.
e)      Não há conceitos equívocos, somente unívocos ou análogos.
f)       Segundo a complexidade ou incomplexidade, os predicamentos podem ser analisados em quatro combinações: na 1ª, se dizem do sujeito, mas não estão no sujeito (são as substâncias segundas); na 2ª, não se dizem do sujeito, mas estão no sujeito (são os acidentes singulares); na 3ª, não se dizem do sujeito e não estão no sujeito (são as substâncias primeiras); e na 4ª, se dizem do sujeito e estão no sujeito (são os acidentes universais).
g)      Quatro Regras dos antepredicamentos: 1ª, predica-se “per si” o predicamento que é segundo sua própria razão; 2ª, uma coisa difere de outra quando a razão de uma difere da razão da outra; 3ª, quando se predica algo de algum sujeito, o quê se diz do predicado também se diz do sujeito; e 4ª, nos gêneros não subalternos, as diferenças essências não são as mesmas.

 
3.       Razões dos Antepredicamentos

 
a)       A 1ª Razão considerada os antepredicamentos em tríplice aspecto: 1º, os análogos e os equívocos estão acima de todos os predicamentos; 2º, os unívocos se coordenam nos mesmos predicamentos; e 3º, os denominativos estão nos mesmos predicamentos em relação aos que estão em outros.
b)      A 2ª Razão consiste em ser a predicação coordenação das coisas simples e não das complexas. Coisas simples são aquelas que têm uma única definição e quididade.
c)       A 3ª Razão consiste em estar ou não o predicamento num sujeito e no se dizer ou não do sujeito. Por isso se dividem em duplo gênero, substâncias e acidentes, coordenados em quatro tipos, segundo a singularidade e a universalidade.
d)      A 4ª Razão consiste em conhecer a coordenação dos predicamentos em linha reta, assim como a conexão ou separação deles enquanto diferença. Duas regras decorrem daí: 1ª o que se predica do superior, predica-se dos seus inferiores; 2ª os gêneros não subordinados ente si não possuem as mesmas diferenças.

 
4.       Equívoco

 
a)      Coisas com o mesmo nome, mas a razão designada por esse nome é diversa.
b)      O conceito de Aristóteles se aplica aos “equívocos equivocados”.
c)       Quanto ao “equivoco equivocante”, a equivocação se dá no nome, não no conceito. O nome é o mesmo, mas a razão a qual se refere é outra.

 
5.       Análogos

 
a)      Analogia é um “médium” entre a univorcidade e a equivocidade.
b)      Conceitos análogos são aqueles que têm em sua razão alguma nota em comum. Esta “nota em comum” era chamada pelos pitagóricos e platônicos de “logos analogante”.
c)       Há dois tipos de analogias: 1º, de atribuição extrínseca, na qual o logos analogante faz parte ou se refere ao que é extrínseco da coisa; e 2º, de atribuição intrínseca.
 d)       Há mais dois tipos de analogias: 1º, de proporção – num dos analogados o “logos analogante” é segundo a intenção e o ser e noutro é apenas segundo a intenção; e 2º, de proporcionalidade – o logos é apenas segundo a intenção para os dois analogados.
e)      A analogia de proporcionalidade se divide em duas: 1ª, própria, quando a razão significada para o análogo se dá para ambos os analogados; e 2ª, imprópria ou metafórica, quando a razão do análogo se dá num e no outro apenas por similaridade.

 
6.       Graus de Univocação Segundo os Escotistas

 
a)      No 1º Grau – o mais perfeito – o unívoco é segundo o nome, a razão, o modo de ser a mesma ordem e a mesma perfeição. Exemplo: homem que se predica para todos os indivíduos da espécie humana.
 b)      No 2º Grau, o unívoco é segundo o nome, a razão, o modo de ser e a mesma ordem. Exemplo: animal, que se predica para homem e bruto.
 c)       No 3º Grau, o unívoco é no nome, na razão e no modo de ser.Exemplo: número, quando se predica para binário e para ternário.
d)      No 4º Grau, unívoco é no nome e na razão. É chamado de único análogo.


terça-feira, 12 de março de 2013

O Termo segundo Aristóteles
 
Pós Predicamentos (Resumos dos capítulos 10 a 15)

 
1. Capítulo 10 (Dos opostos)

 
a)                 Acepções habituais de oposição


b)                 Há quatro maneiras de oposição de um termo a outro: 1ª oposição dos relativos; 2ª dos contrários; 3ª da privação à posse e 4ª da afirmação e da negação.

c)                  Oposição dos relativos – a totalidade do ser de um consiste em ser dito do seu oposto, ou que a ele se refere de alguma maneira numa relação recíproca. Por exemplo, o dobro e a metade; o conhecimento e o cognocível.

d)                 Oposição dos contrários – não tem sua essência na referência que mantém um com o outro. Manifestam-se de dois modos: 1º quando há contrários que estão em algo ou é afirmado de algo e este algo necessariamente deve conter um ou outro, não há intermediário entre eles, por exemplo, a doença e a saúde; 2º quando há contrários em que um e outro não estão necessariamente contidos no sujeito, há intermediário entre eles, por exemplo, negro e branco, sendo intermediárias todas as outras cores. Em certos casos o intermediário possui nome, como nas cores, mas em outros o intermediário não possui, sendo denominado com a negação dos dois contrários, como entre bom e mau, cujo intermediário é o que não é nem bom nem mau.

e)                 Opostos como privação e posse – o termo designa a posse natural de algo e o contrário designa a ausência do que se é apto a receber, mas não está de nenhuma maneira.

f)                    Opostos como afirmação e negação – a afirmação e a negação são próprias das proposições e não dos termos. Somente neste caso uma é verdadeira e a outra é falsa, porque nelas está expresso uma ligação. Dentre elas, em algumas não há relação de verdade e falsidade entre as opostas, quanto o sujeito não existe. Por exemplo, se “Socrates” não existe, ambos os contrários são falsos em “Socrates está doente” e “Socrates está de boa saúde”. Os opostos necessariamente verdadeiros e falsos são “Socrates está doente” e “Socrates não está doente”.

g)                 Duas observações importantes: 1º Estar privado de algo, ou possuí-lo, não é a mesma coisa que a privação e a posse. Por exemplo, cegueira e visão são privação e posse; mas estar cego ou ter a visão é está privado de algo e possuí-lo. 2º A oposição nas proposições afirmativas e negativas se aplicam também aos sujeitos da proposição.

h)                 As maneiras como os termos se enquadram em suas respectivas oposições são próprias de cada oposição, não havendo entre elas compartilhamento. Exceto o caso dos contrários que não comportam intermediário que, por necessariamente um ou outro dever estar sempre presente no sujeito em que residem, caem sob a privação e a posse.
 

2. Capítulo 11 (Dos Contrários)

 
a)                 Por indução dos casos particulares, o contrário de um bem é um mal. Na maioria das vezes, o contrário de um mal é um bem. Mas num pequeno número de casos, o contrário de um mal pode ser um mal ou um bem, por exemplo: o contrário de excesso (um mal), pode ser carência (um mal) ou medida (um bem).

b)                 Nos contrários, a existência de um não acarreta necessariamente a existência do outro. Por exemplo, se todo mundo é saudável, a saúde existirá, com a exclusão da doença.

c)                  Os contrários existem naturalmente num sujeito que é o mesmo, pelas espécies ou pelo gênero. A saúde e a doença se encontram no corpo do animal.

d)                 Os contrários estão no mesmo gênero, em gêneros contrários, ou eles mesmos são gêneros contrários.

 
3. Capítulo 12 (Do anterior ou da prioridade)

 
a)                 De uma coisa se diz anterior de quatro maneiras: 1ª segundo o tempo (sentido fundamental); 2ª aquele cuja existência não depende do posterior, mas este depende daquele; 3º com relação à certa ordem e 4ª o que é melhor e mais estimável que o outro parece ser anterior por natureza, mas Este é o sentido mais afastado.

b)                   Outro sentido: nas coisas que são recíprocas quanto à existência, é anterior aquela que for causa de existência da outra, por exemplo: o homem real e a proposição verdadeira em que é sujeito; se o homem existe a proposição é verdadeira existe e vise versa, mas o homem real é anterior porque sem a sua existência a proposição verdadeira em que é sujeito não existiria.


4. Capítulo 13 (Da simultaneidade)

 
a)                 De duas maneiras se diz simultâneo: 1ª num sentido simples, quando duas coisas são geradas ao mesmo tempo; 2ª por natureza, cujas existências são recíprocas e uma não é causa para a outra.

b)                 As espécies que, na divisão do mesmo gênero, são opostas, são também simultâneas por natureza.  

c)                  Não há simultaneidade entre o gênero e suas espécies, pois aquele é sempre anterior a estas.

 
5. Capítulo 14 (Da moção)

 
a)                 Há seis espécies de moção: a geração, a corrupção, o aumento, a diminuição, a alteração e a moção local.

b)                 Oposição entre as moções: geração e corrupção; aumento e diminuição; movimento e repouso ou movimento em sentido contrário e alteração e repouso qualitativo ou em sentido qualitativo contrário.

c)                  Alteração é a mudança para a qualidade contrária.

 
6. Capítulo 15 (O termo “habere”, ter)

 
a)                 Diversas acepções: sentido de hábito e de disposição ou de qualquer outra qualidade; sentido de quantidade; sentido de “como num vaso”; sentido de posse; sentido afastado, por exemplo, quando se diz “ter uma mulher” que precisamente significa “habitar com ela”. Estes são os habituais, mas há outros sentidos.